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Palavra de Deus: o que devemos fazer?

No dia 26 de janeiro, 3º Domingo do Tempo Comum, celebramos pela primeira vez em toda a Igreja Católica o “Domingo da Palavra de Deus”, instituído pelo Papa Francisco com
a Carta Apostólica em forma de Motu Proprio – “Aperuit illis” (Abriu-lhes o entendimento) -, em 30 de setembro de 2019. A data da publicação corresponde à festa de São Jerônimo, grande estudioso das Sagradas Escrituras e tradutor dos textos originais para a língua popular do seu tempo, para que o povo tivesse maior acesso à Palavra de Deus.

O título do Documento faz referência ao momento em que Jesus ressuscitado apareceu aos onze apóstolos, ainda perturbados e cheios de dúvidas por causa do drama da condenação
dele à morte, lhes “abriu a inteligência para compreenderem as Escrituras” (cf Lc 24,45), prometendo-lhes o Espírito Santo, qual “força do alto”, para assisti-los na missão de
testemunhas “dessas coisas” em todas as nações (cf Lc 24,36-49).

Dispõe o Papa que, o 3º Domingo de Tempo Comum, ou segundo Domingo após a festa do Batismo de Jesus, seja celebrado e vivido em toda a Igreja, a cada ano, como Domingo da
Palavra de Deus. Embora cada Domingo já seja “dia da Palavra de Deus”, pela própria natureza e disposição ordinária da Liturgia, o Papa Francisco pede que no 3º Domingo do
Tempo Comum, haja uma atenção especial à Palavra de Deus, por motivos bem fortes: a Palavra de Deus deve ocupar um lugar central na fé e na vida da Igreja e de cada fiel
católico. Ainda há muita carência de acesso à Palavra de Deus entre os fiéis e isso precisa ser enfrentado com decisão e dedicação.

A Igreja não vive de sua própria palavra, nem de palavras de vários mestres de sabedoria. Ela é discípula, servidora e anunciadora da santa Palavra de Deus, que possui o poder
criador, vivificante e transformador do próprio Deus vivo. Sem a luz e a força dessa Palavra, a vida da Igreja e a fé dos fiéis esfria e se desorienta, os vícios e erros crescem e tomam conta e começam a se afirmar, sobretudo, as palavras humanas, tantas vezes movidas por soberba, vaidade e gérmens de divisão e dispersão. Pedro compreendeu isso muito bem, quando Jesus colocou os discípulos diante da escolha: ficar com ele e acolher suas palavras, ou ir-se embora: “A quem iremos nós, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos e sabemos firmemente que tu és o Santo de Deus” (Jo 68-69).

Francisco pede que as comunidades locais encontrem os modos adequados para viverem com proveito o Domingo da Palavra de Deus. Algumas iniciativas práticas, no entanto, são
indicadas no Documento, como entronizar solenemente o Livro da Palavra de Deus no início da celebração e colocá-lo em lugar de destaque diante dos fiéis; promover o acesso à Bíblia a quem ainda não a possui; ensinar ao povo algum método de leitura e compreensão da Palavra de Deus; incentivar a leitura diária da Palavra pelas pessoas, nas famílias, grupos e comunidades; preparar e realizar bem a homilia dominical… É claro que as iniciativas podem ser muitas e bem diversificadas, mas é importante que elas alcancem e envolvam o maior número possível de pessoas. A semente da Palavra não deve ficar guardada, nem ser semeada com preguiça, ou mão fechada…

Isso nos interpela e precisa ser levado em conta em nossa reflexão e discernimento no contexto do sínodo arquidiocesano. A pesquisa de campo, feita em 2018 em todas as paróquias de nossa Arquidiocese, mostrou várias questões que não devem ser esquecidas agora, quando estamos para elaborar os propósitos do nosso sínodo. Deixou evidente uma enorme carência de evangelização e formação cristã do nosso povo católico. Revelou vastas lacunas na iniciação à fé e à vida cristã e uma grande falta de catequese sistemática entre os
católicos. Mostrou também que o povo deseja maior formação a partir da Palavra de Deus, deseja e aprecia boas homilias, tem muitas dúvidas sobre a interpretação correta da Bíblia e
está sedento de beber nas fontes límpidas e salutares da Palavra de Deus. O que devemos fazer? Que propósitos e iniciativas o sínodo deve elaborar, para indicar o “caminho de
comunhão, conversão e renovação missionária” de nossa Arquidiocese inteira, a partir do sínodo?

Evidentemente, não se trata de “inventar a roda”… Os Documentos do Magistério conciliar, pontifício e episcopal são pródigos de orientações e normas a esse respeito. A Liturgia e a
vida ordinária da Igreja estão impregnadas da Palavra de Deus. Se alguém fosse à Missa todos os dias, estaria lendo na, e com a comunidade Igreja, praticamente a Bíblia inteira a
cada três anos… O que podemos fazer para que esse rico banquete, já pronto, não seja ignorado ou desdenhado pelos convidados, que tantas vezes acabam “desfalecendo pelo
caminho”, por falta de alimento para a sua fé?

São Paulo, 29 01 2020

Cardeal Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo

 

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