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O Natal e a religião

O título deste artigo impõe que logo se esclareçam os termos da questão colocada. Natal: é uma data do calendário civil e religioso que ocorre no dia 25 de dezembro de cada ano. Ela tem origem de uma religião que se inculturou profundamente na civilização do assim chamado “ocidente cristão”. Natal é, portanto, uma data ligada à religião cristã, comum às diversas ramificações que o cristianismo teve no ocidente, ao longo de dois mil anos de história. Para a religião cristã o natal é a celebração do nascimento de seu fundador, Jesus Cristo, acontecido “no tempo de Herodes, rei da Judéia” (Lc 1,5), por ocasião do “decreto do imperador Augusto, mandando fazer o recenseamento de toda a terra – o primeiro recenseamento, feito quando Quirino era governador da Síria” (Lc 2,1b-2).

Este nascimento se tornou tão significativo que o Ocidente conta os anos a partir dele, e sua celebração se tornou tão abrangente que superou os limites da religião cristã e alcançou de alguma forma a todos, inclusive os não cristãos. Religião: é o conjunto de ritos, doutrinas, liturgias, instituições originadas por uma fé longamente vivida, celebrada, refletida, pensada e experimentada por gerações, ao longo de séculos. Religião é, portanto, a concreção de uma fé; é uma fé tornando-se concreta (isto é, concriada).

Note-se aqui que a explicação etimológica usualmente data à palavra religião (religio, em latim) está ligada ao escritor cristão Lactâncio, (+330 d.C); para ele a palavra religio viria do verbo religare, que significa ligar de novo, estabelecer de novo laço, novo relacionamento; religião seria, nesse sentido, a atitude de piedade e devoção que religa, une de novo os homens a Deus. Mas Cícero (106 – 43 a.C.), escritor não cristão impregnado de cultura grega, considera que a palavra religio viria do verbo relegere, que significa ajuntar de novo, recolher, retomar, colher, ajuntar, no sentido da colheita bem feita: a partir de uma experiência religiosa originante, anterior e maior do que todos os empenhos e possibilidades do ser humano, surgem ritos, doutrinas e instituições como colheita do cultivo e da condução que vem do toque desta mesma experiência originante.

A pessoa alcançada e receptiva ao toque desta experiência originante (a fé é o encontro destas duas dinâmicas!) é uma pessoa “religiosa”. Esclarecidos os termos de nosso tema, busquemos captar o relacionamento que há entre o Natal e a Religião, que aqui, neste caso, é a religião Cristã. Natal é o acontecimento fundante da fé cristã sendo celebrado, festejado, recordado com recolhimento, com amor e doação, por todos aqueles que foram tocados (afeiçoados) pelo anúncio da Boa Nova do nascimento de Jesus Cristo, pessoa-experiência originante do cristianismo. Natal é o desvelamento de uma novidade inaudita: Deus é amor que ama primeiro, é amor gratuito, é amor-misericórdia, amor que coloca a si mesmo no risco da cruz; Deus é pai que quer seus filhos participantes de sua vida na eternidade feliz que ele próprio é. O risco da religião é esquecer-se de sua experiência originante e fundante. Este esquecimento faz com que o rito se torne ritualismo, as liturgias se tornem teatro, a doutrina se torne dogmatismo, a festa se torne destempero. Com isso a própria religião se torna vazia, deixando de ser “colheita” de uma experiência de fé vivida para se tornar prática de ações formais e mágicas.

Infelizmente, o Natal incorre neste risco e perigo. Pois para muitas pessoas no Natal o grande esquecido é Jesus Cristo; ele é até desconhecido por muitos; ele foi neutralizado, submergido pelo consumo, pelo feriadão, pela festa destemperada, pelo papai noel, pela “bondadezinha” insossa e inócua. Este esquecimento, quando ocorre, da boa nova do Natal dá tristeza, pois se perdeu um tesouro precioso, se perdeu o mais importante. Nós, cristãos, queremos que o Natal ainda tenha um sentido religioso cristão pra valer. O otimismo radical de nossa fé faz com que nós possamos nos permitir uma análise realista, mas serena da fragilidade e da maldade humana. A história nossa pessoal, a história coletiva presente e passada, confirmada por hediondos fatos de ontem e de hoje, mostra como o homem a partir exclusivamente de seu horizonte não é lá capaz de grande coisa! O homem não é capaz de salvar a si mesmo; ele precisa de um toque que o salve. Salvação, o que é isso? O ser humano é liberdade; liberdade significa estar no risco de perder-se ou salvar-se, isto é, realizar-se radical-mente ou frustrar-se radicalmente.

A finitude, a fragilidade e, às vezes, a maldade humana empurram o ser humano para um horizonte maior, horizonte que lhe dá a possibilidade de ter e realizar um sentido de vida que o conduza e o satisfaça, fazendo com que o homem seja verdadeira-mente ele mesmo, salvo portanto, feliz. Sem uma boa experiência desta insuficiência da “condição humana” não há celebração gostosa do Natal. Pois no Natal celebramos o inaudito: Deus se fez (e liturgicamente sempre de novo se faz) homem. Natal é anúncio da benignidade de Deus, da misericórdia, da surpreendente comunhão entre o divino e o humano, uma comunhão que é “salus”, isto é, saúde radical, salvação. Natal é salvação não no sentido de que o homem, para ter comunhão e participação com o divino, deva se tornar menos homem, mas no sentido que deve se tornar tão homem quanto Jesus Cristo o foi. É grande este mistério de bondade. Bondade “boa”, não “boazinha”. A compreensão e a recepção deste mistério na vida nossa pessoal, eclesial, comunitária e social não é fácil, e não é fácil fazer com que ela se torne “história” de uma pessoa, de uma comunidade, de um povo, de uma cultura… Ela implica em transformação. E a transformação do humano é sempre processo lento, que exige constância, empenho e vigilância, numa saudável repetição de reflexões e exercícios religiosos. O Natal é precedido pelo tempo litúrgico do Advento; é o tempo destinado ao cultivo deste empenho e desta vigilância, passando pela boa percepção da insuficiência, fragilidade e maldade da “condição humana”.

Quanto mais faremos ecoar em nós esta experiência, com maior alegria estaremos celebrando o Natal, pois perceberemos pela experiência que, em Jesus Cristo, o divino faz de fato levedar o humano e lhe dá transformação e sentido pleno. Ao passarmos pelos dias que antecedem o Natal não deixemos de recordar (isto é, recolocar no coração) o cerne, o sentido, o porquê do Natal. Na liturgia católica estes dias que antecedem o Natal têm o nome de Advento: tempo da espera atenta, acolhedora e transformadora do Evento; e este Evento é uma pessoa: Jesus Cristo, Filho de Deus e Filho do Homem. Um Feliz Natal, acompanhado por um Ano Novo realizador.

Dom Fernando Mason, bispo da Diocese de Piracicaba

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