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Aproxima-se o Natal e os cristãos preparam-se para lembrar, mais uma vez, o nascimento de Jesus Cristo; tempo de festas e presentes, de ações de bondade e solidariedade, também acompanhado por muitos que não crêem em Deus, ou são de fé diferente. O Natal é envolvente.
Para os cristãos, é um tempo de renovação da esperança, pois o Natal recorda que o homem não está só neste mundo: Deus veio ao seu encontro, entrou na sua história de maneira surpreendente, tornando-se próximo de todo homem, estendendo a mão para soerguer os caídos, curar os enfermos, libertar pobres e oprimidos e trazer luz e consolo aos aflitos.
O Advento, período que precede o Natal na Liturgia cristã, traz a tônica da esperança: a “salvação” anunciada e esperada vai além daquela que o homem pode dar a si mesmo e transcende as capacidades humanas: é oferecida por Deus ao homem, que só pode acolhê-la de coração agradecido, dispondo-se a cooperar livremente com a obra de Deus. Mesmo assim, Deus não entra na história do homem para assumir o lugar dele, mas para ser seu companheiro, confortá-lo e orientá-lo em seu caminho, atraindo-o suavemente, mas de modo irresistível, para aqueles bens absolutos que o coração humano deseja e busca, muitas vezes sem o saber.
Tenho a consciência de que esta linguagem pode parecer irreal para os nossos dias, marcados pela técnica e pela afirmação máxima das realizações humanas. As tecnologias da informática nos condicionam, aos poucos, para crer que tudo funciona como o apertar de algumas teclas e, pronto! O resultado aparece invariavelmente, salvo se nós mesmos erramos ao introduzir dados na maquininha… O mundo, porém, não é um computador… Menos ainda, o coração humano!
Nada contra essas maquininhas maravilhosas, que eu também uso. Mas será que a forma mecânica de raciocinar não leva à pretensão de formatar também o mundo do homem de acordo com as leis da informática? E o que não entra nessa lógica? E os sentimentos e emoções? E as pessoas, consideradas individualmente, com suas histórias muito particulares e únicas? E os anseios do coração inquieto, que deseja e busca, que nunca se satisfaz? E as relações entre as pessoas, que tentam expressar em novas linguagens as mesmas necessidades de sempre, o afeto, a partilha, a intimidade, o sentido? E o mistério de cada ser humano, que nunca se traduz plenamente em linguagem alguma?
Ao afirmar que o Filho de Deus se fez humano e passou a viver entre os homens, a fé dos cristãos refere-se a algo inaudito: é possível isso? Desde o início, os cristãos estavam conscientes de anunciarem “uma grande alegria”, conforme uma bela expressão do Evangelho do Natal, mas também algo que chocaria a lógica humana. No entanto, afirmavam com todas as letras: “a Palavra de Deus se fez carne e habitou no meio de nós. E nós vimos a sua glória, que era glória do Filho único do Pai” (cf. Evangelho de João, 1,9-14).
Em todos os tempos, desde que o anúncio do Evangelho de Cristo teve início, isso gerou questionamentos, controvérsias e até perseguições e martírios. E gera ainda em nossos dias, quando muitos estão sendo martirizados apenas porque se identificam com o nome de Cristo. Pensando bem: se Deus é Deus, quem pode pretender que ele deva enquadrar-se exatamente nos limites da razão e da lógica humanas? Poderíamos nós impor a Deus o que ele pode ou não pode fazer? As expressões da teologia e da liturgia cristãs sempre mostraram o pasmo suscitado pelo “mistério inefável” do Natal, diante do qual emudecem as palavras e se põe o coração a contemplar e cantar. A realidade do Natal é mais facilmente comunicável pela arte que pelo discurso articulado; é só ver as obras de altíssimo valor, que a arte erudita e popular produziu ao longo dos séculos sobre o “mistério do Natal”.
E os cristãos nunca mais deixaram de lembrar que no Natal, comemoramos a maravilha das maravilhas: em Jesus Cristo, Deus tornou-se próximo de cada homem; tão próximo, que se fez um deles. Falou-lhes humanamente; com coração humano, mostrou compaixão e misericórdia para os que, na nossa lógica soberba, não contam e podem ser descartados. Todo divino, todo humano, a todos estendeu a mão para resgatá-los de toda alienação. O divino e o humano podem estar mais próximos do que imaginamos!
O Natal continua a inspirar fraternidade, esperança e paz; faz entrever que o mundo pode ser melhor, as relações humanas podem ser mais sinceras e construtivas, cada pessoa tem valor e todos merecem experimentar a felicidade. É bom ver a alegria sincera no rosto das pessoas, ouvir cantos que despertam sentimentos bons em vez de gritos de violência; o Natal faz pensar que seria bem melhor, se não houvesse tanta soberba e egoísmo, se todos pudessem viver algo da simplicidade das crianças.
O Natal nos aponta para o que é verdadeiramente humano. Para um recém-nascido, voltam-se as atenções, porque ele representa o novo, o surpreendente… O Papa Francisco fala que é preciso acolher as surpresas de Deus nas várias circunstâncias da vida, alegres ou tristes. Deus é surpreendente e, bem por isso, também é a fonte da esperança, uma vez que nem tudo depende só de nós; se viesse a ser realidade apenas aquilo que nós somos capazes de suscitar, não haveria esperança de superação dos nossos limites.
A liturgia cristã do Natal também se refere a Jesus como o “Príncipe da paz”, que convida a depor as armas de guerra e a sentarem os povos à mesa do diálogo e da fraternidade. Isto é possível? Poderá acontecer um dia? Este é o sonho de Deus para a grande família humana; ao mesmo tempo, também é o anseio mais profundo do nosso coração. Não pode ser ilusão: é esperança!
Artigo publicado no Jornal O Estado de São Paulo, Edição de 13 dedezembro de 2014
Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo