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Movidos pela Esperança

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Marcado por grave crise política e econômica, 2015 chegou ao fim deixando-nos a sensação de estarmos no fundo do poço. Da operação Lava Jato, com suas inúmeras e surpreendentes fases, às discussões acaloradas sobre impeachment e cassação de mandatos de parlamentares, o Brasil viveu inseguranças e incertezas que comprometeram os avanços obtidos nos últimos anos. Especialistas afirmam que, neste ano, a situação tende a se agravar.

As inúmeras manifestações populares ocorridas nas ruas e nas redes sociais, no ano passado, revelam a inquietação e a insatisfação do povo brasileiro com os rumos do País. Expressam também o descrédito na política e nos políticos, justificado pela corrupção entranhada na estrutura de nossas instituições e nas práticas políticas, que servem mais a interesses particulares e grupais que ao bem comum.

Prova disso é que 2015 acabou e, mais uma vez, não avançamos em temas importantes, como uma reforma política ampla e abrangente, capaz de restabelecer a confiança dos brasileiros nos políticos. Nessa área, uma pequena vitória – oriunda não do Congresso, mas do STF – foi a proibição do financiamento de partidos e políticos por empresas privadas. É preciso, porém, avançar muito mais no que se refere ao aperfeiçoamento do sistema eleitoral, à fidelidade partidária, à propaganda eleitoral e à proposta programática dos partidos para identificá-los perante os eleitores.

A recente tragédia provocada pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana-MG, acordou o Brasil para a séria questão da mineração no País. Só agora a população brasileira começa a dar-se conta da tramitação do novo Código de Mineração no Congresso Nacional. Não se pode perder de vista, nessa discussão, como já alertara a CNBB, que “a exploração mineral é uma atividade que provoca impactos em povos, comunidades e territórios, gerando conflitos em toda sua cadeia” (Carta Aberta da CNBB sobre o Marco Regulatório da Mineração – 2013).

As dificuldades que o Brasil atravessa não devem nos levar ao desânimo e à perda da esperança. Elas são, ao contrário, oportunidade de crescimento e de aprendizagem para a correção de erros e a retomada do progresso. A solução de nossos problemas passa pelo resgate da ética e pelo compromisso com o bem comum, cujo caminho é o diálogo com as forças vivas da sociedade. Temos de estar atentos ao que disse o Papa Francisco à classe dirigente do Brasil em 2013: “A única maneira para uma pessoa, uma família, uma sociedade crescer, a única maneira para fazer avançar a vida dos povos, é a cultura do encontro; uma cultura segundo a qual todos têm algo de bom para dar, e todos podem receber algo de bom”.

“Tempos maus, tempos difíceis”, dizia-se no período da invasão dos Bárbaros e do declínio do império romano, no século IV. A esse dito popular, Santo Agostinho respondia: “Vivamos bem, e os tempos serão bons; nós somos o tempo: tal como somos, assim serão os tempos”.

Nestes tempos difíceis, o que fazer para a solução de nossos graves problemas? Avalio que o mais urgente é removermos o impasse entre economia e política. Essas áreas devem estar em diálogo para a plenitude humana. É como propõe o Papa Francisco na encíclica Laudato Si: “Pensando no bem comum, hoje, precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana”. Nutro a esperança de que saibamos, no Brasil, seguir por esse caminho.

Por Dom Raymundo Damasceno Assis, Cardeal Arcebispo de Aparecida

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