Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp

Muito elogiada pelos principais chefes de Estado do mundo, por importantes órgãos da ONU (Organização das Nações Unidas) e por representantes de outras denominações religiosas, a recém-lançada encíclica do Papa Francisco “Laudato Si” é leitura não só obrigatória, mas aprazível e necessária a todos os cristãos.
A encíclica, que trata sobre a ecologia, foi apresentada no último dia 18 de junho, na Sala Nova do Sínodo, no Vaticano. Seu título foi inspirado no lindo “Cântico das Criaturas” de São Francisco de Assis: “Laudato si, mi Signore – Louvado sejas, meu Senhor”, que indica a natureza como irmã e mãe, ao mesmo tempo. Nela, o Papa convida a uma conscientização e a uma imediata reação de todos os povos para o cuidado da casa comum, trazendo presente não só aquilo que tem afligido e até vitimado povos inteiros na atualidade, mas também o mundo que queremos oferecer para nossos filhos e netos e todas as futuras gerações.
O documento tem seis capítulos. No primeiro, o Papa traz à tona o que está acontecendo com a nossa casa. As consequências drásticas da poluição e mudanças climáticas, a questão da água, a deterioração da qualidade da vida humana, entre outros temas que vêm assolando a humanidade. Denuncia a ganância pelo poder e dinheiro desencadeados pela tecnologia, que apesar da criatividade que trouxe e traz tantos benefícios à humanidade, tem gerado muita destruição no mundo, e, prejudicado, sobretudo, os mais pobres: “Por exemplo, as mudanças climáticas dão origem a migrações de animais e vegetais que nem sempre conseguem adaptar-se; e isto, por sua vez, afeta os recursos produtivos dos mais pobres, que são forçados também a migrar com grande incerteza quanto ao futuro da sua vida e dos seus filhos” (n. 25). Aponta ainda o descaso com o drama vivido pelos refugiados: “A falta de reações diante destes dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil”. Enfocando o esgotamento dos recursos naturais, denuncia o hábito do desperdício e até mesmo o descuido com o limite máximo de exploração do planeta, exemplificando a questão da água e da perda da biodiversidade, a depredação e a extinção de espécies vegetais e animais essenciais para a manutenção harmoniosa do meio ambiente.
Já no capítulo II, o Papa aponta o Evangelho da Criação, trazendo luzes e uma mensagem de esperança para a humanidade, finalizando com o olhar de Jesus e sua relação tão concreta a amorosa para com o mundo.
No capítulo III, o Papa retoma a raiz humana da crise ecológica. Propõe uma rica reflexão sobre o paradigma tecnocrático dominante e sobre o lugar que ele ocupa no ser humano e a sua ação no mundo. Enaltecendo mais uma vez a inegável e maravilhosa herança das enormes mudanças dos últimos dois séculos, desde a máquina a vapor até a revolução digital, a robótica, as biotecnologias e as nanotecnologias, aponta a encruzilhada imposta pelo poder da tecnologia: “Nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma, e nada garante que o utilizará bem, sobretudo se se considera a maneira como o está a fazer” (n. 104). E alerta: “A verdade é que “o homem moderno não foi educado para o reto uso do poder”, porque o imenso crescimento tecnológico não foi acompanhado por um desenvolvimento do ser humano quanto à responsabilidade, aos valores, à consciência. (…) “É possível que hoje a humanidade não se dê conta da seriedade dos desafios que se lhe apresentam, e “cresce continuamente a possibilidade de o homem fazer mau uso do seu poder” quando “não existem normas de liberdade, mas apenas pretensas necessidades de utilidade e segurança” (n. 105). Retoma também neste capítulo a cultura do relativismo, definindo-a como uma “patologia que impele uma pessoa a aproveitar-se de outra e a tratá-la como mero objeto” (n. 123). Finaliza o capítulo com a afirmativa: “(…) a técnica separada da ética dificilmente será capaz de autolimitar o seu poder” (n. 136).
O Pontífice propõe, no capítulo IV, uma ecologia integral que inclua claramente as dimensões humanas e sociais, apresentando a ecologia ambiental, econômica e social, a ecologia cultural, a ecologia da vida cotidiana, retomando um dos pilares da Doutrina Social Cristã: o princípio do bem comum em relação tanto à geração atual quanto às futuras.
O Papa Francisco apresenta algumas linhas de orientação e ação no Capítulo V, “delineando grandes percursos de diálogo para nos ajudar a sair da espiral de autodestruição, onde estamos afundando” (n. 163). Propõe o diálogo sobre o meio ambiente na política internacional; o diálogo para novas políticas nacionais e locais; o diálogo e transparência nos processos decisórios; a política e economia em diálogo para a plenitude humana; e, mais uma vez aponta um dos grandes legados e esforços de seu pontificado, o ecumenismo e o diálogo inter-religioso: as religiões no diálogo com as ciências: “A gravidade da crise ecológica obriga-nos, a todos, a pensar no bem comum e a prosseguir pelo caminho do diálogo que requer paciência, ascese e generosidade, lembrando-nos sempre que ‘a realidade é superior à ideia’” (n. 201).
O capítulo VI dedica-se a apontar também soluções concretas para uma mudança da humanidade, enfatizando uma consciência basilar da origem comum, de uma recíproca pertença e de um futuro partilhado por todos (n. 202). Sugere apontar para outro estilo de vida; educar para a aliança entre a humanidade e o ambiente; a conversão ecológica e a alegria e paz, fundadas na grande riqueza da espiritualidade cristã; o amor civil e político; os sinais sacramentais e o descanso celebrativo e conclui apontando: – uma bela reflexão sobre o mistério da Trindade, fazendo analogia de sua comunhão à necessária relação entre as criaturas; – Maria, a Rainha de toda a Criação, e, ao lado d’Ela, na Sagrada Família de Nazaré, – a figura de São José, homem justo, trabalhador, forte e ao mesmo tempo terno.
Ao final da encíclica os leitores têm a chance de se unirem à reflexão do Papa Francisco, através das duas intenções propostas por ele: uma que poderá ser partilhada por todos que crêem num Deus Criador Onipotente e outra pedindo para nós, cristãos, a graça de assumirmos os nossos compromissos com a criação que o Evangelho nos propõe (cf. n. 246).
Dom Luiz Antônio Guedes
Bispo Diocesano de Campo Limpo (SP).