Em várias cidades existem Totens com a inscrição “Esta cidade é do Senhor Jesus Cristo”. O que queremos dizer quando afirmamos que Jesus é o Senhor?

Os títulos dados a Jesus são como diversos “pontos de vista” que interpretam o mistério divino de sua pessoa e são tentativas de traduzir a profundidade e a sublimidade desse mesmo mistério.

Nós usamos a palavra portuguesa “senhor” como uma forma respeitosa para nos dirigirmos a homens. No nosso cotidiano, é muito comum distinguir homens que tem alguma autoridade com esse tratamento cerimonioso.

Quando, porém, encontramos no Novo Testamento o título “Senhor” aplicado a Jesus, precisamos ir muito além dessa simples forma de tratamento. Não podemos, portanto, transferir simplesmente o conceito que nós temos de “senhor” para o título Kyrios aplicado a Jesus.

Nesse sentido, é interessante ler 1Cor 8,5-6: “Pretende-se, é verdade, que existam outros deuses, quer no céu quer na terra (e há um bom número desses deuses e senhores). Mas, para nós, há um só Deus, o Pai, do qual procedem todas as coisas e para o qual existimos, e um só Senhor, Jesus Cristo, por quem todas as coisas existem e nós também”.

A partir dessa citação, pode-se notar que os primeiros cristãos aplicaram o título “Kyrios” a Cristo ressuscitado para afirmar a sua autoridade sobre toda a criação (“por ele todas as coisas existem e nós também”). Trata-se de uma autoridade que é própria de Deus, de uma autoridade que não é somente futura, mas que se realiza já no presente particularmente na celebração eucarística. A “fração do pão”, com efeito, parece ter sido o contexto em que os primeiros cristãos começaram a atribuir esse título a Cristo. De fato, a eucaristia é a celebração na qual o Cristo ressuscitado está presente em meio aos seus quando estes partem o pão em sua memória.

Jesus é Senhor, mas não como os outros senhores deste mundo (“há um bom número desses deuses e senhores”). Ele instaura o seu domínio fazendo-se servo (cf. Fl 2,6-11). A sua autoridade de Kyrios chega ao seu ponto alto na extrema humilhação da cruz e do serviço radical. O crucificado é o Senhor (cf. At 2,36) ao dar a sua vida.

A relação que há entre o Senhorio de Cristo e a Páscoa revela o estilo peculiar da realeza de Cristo: o seu domínio não é como o dos tiranos deste mundo, mas consiste na doação de si mesmo até o sacrifício da cruz para cumprir a vontade do Pai. Por isso confessar “Jesus é o Senhor” implica para os cristãos o serviço e a doação de si em favor dos outros. Se os cristãos se submetem realmente ao Senhor, devem também servir como Ele. Se Ele lavou os pés dos discípulos porque é o Senhor, com mais razão ainda os discípulos do Mestre devem lavar os pés uns dos outros.

A submissão ao domínio de Cristo não é escravidão, mas, ao contrário, participação na vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. Essa liberdade que procede da submissão ao senhorio de Cristo, torna os cristãos particularmente críticos contra todo poder político que se pretenda absoluto.

Desde o princípio da história cristã, a afirmação do senhorio de Jesus sobre o mundo e sobre a história significou também o reconhecimento de que o homem não deve submeter a sua liberdade pessoal, de modo absoluto, a nenhum poder terreno, mas somente a Deus Pai e ao Senhor Jesus Cristo.

Se somente Jesus é o Senhor, não pode haver outros senhores. Foi exatamente essa convicção e liberdade diante dos poderes políticos que levou S. Policarpo a dizer: “Cesar não é o Senhor”. Essa mensagem é a mesma que foi dada por cristãos na Alemanha nazista que proclamaram publicamente que na Igreja há um só “Senhor” (“Hitler não é o Senhor”).