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Inquietação

“O que está acontecendo com a nossa casa” é o título do primeiro dos seis capítulos da encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco. É uma espécie de diagnóstico; afinal os ecossistemas mundiais, que são as reservas mais importantes da biosfera, a biodiversidade, estão ameaçados. As mudanças climáticas, resultantes do aquecimento global, deveriam despertar, no mínimo, inquietação; a realidade é preocupante.

O aquecimento global se deve “à alta concentração de gases com efeito de estufa”. Essa “concentração na atmosfera impede que o calor dos raios solares refletidos pela terra se dilua no espaço”. E tudo “isso é agravado pelo uso intensivo de combustíveis fósseis, que está no centro do sistema energético mundial” e pelo “desflorestamento para finalidade agrícola”. A crítica ao desmatamento perpassa todo o capítulo, visto que “a perda de florestas e bosques implica a perda de espécies”.

O Papa alerta que não é mais “tempo de confiança irracional no progresso” e critica o que chama de “alegre irresponsabilidade” ou “comportamento evasivo” diante do que está acontecendo. É tempo de “maior conscientização”, “crescente sensibilidade” e de “transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece ao mundo para, assim, reconhecer a contribuição que cada um lhe pode dar”.

O texto insiste que “a degradação ambiental tem origem na degradação humana, social e ética” e que as conseqüências negativas da deterioração ambiental recaem preponderantemente sobre os pobres e excluídos, “sobre os países em vias de desenvolvimento”, e sobre o hemisfério Sul desfrutado em benefício do Norte. Aprofunda aspectos específicos, prioritários e vitais, como a crescente escassez de água potável, a importância da Amazônia e a vida nas grandes cidades.

Critica a tecnologia e o mercado financeiro por serem incapazes “de ver o mistério das múltiplas relações que existem entre as coisas”, considerando “que todas as criaturas estão interligadas e todos nós, seres criados, precisamos uns dos outros”. Alerta que o sistema industrial ainda “não desenvolveu a capacidade de absorver e reutilizar resíduos e escórias” e que a “cultura do descarte” é nociva ao Planeta.

A meta é buscar um desenvolvimento humano sustentável, uma ecologia integral, um pensar e agir diferenciados. Novo olhar e nova cultura, a partir de valores perenes, como o da gratuidade! As espécies “possuem um valor em si mesmas”, dão glória a Deus e comunicam sua própria mensagem, valem pelo que são e não pelo quanto podem economicamente render, possuem beleza e a exprimem, na diversidade, com encanto, harmonia e simplicidade. E a resposta humana, gratuita e não utilitária, acontece na admiração, contemplação e preservação.

Dom Pedro Luiz Stringhini, Bispo Diocesano de Mogi das Cruzes e vice-presidente do Regional Sul 1 da CNBB

Mogi das Cruzes, 07 de julho de 2015

 

 

 

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