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Igreja na África evangeliza por atração. Entrevista com Luiz Fernando Lisboa

Bispo Dom Luis Fernando Lisboa. (Foto: Arquivo Regional Sul 1)

Missionário em Moçambique há mais de uma década, Dom Luís Fernando Lisboa é, desde 2013, Bispo da Diocese de Pemba. Após um ano e meio sem visitar sua terra natal, o Bispo voltou ao Brasil para rever familiares e se encontrar com bispos do Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que possui um trabalho missionário na Diocese.

Em entrevista ao O SÃO PAULO, o Bispo falou sobre a viagem apostólica do Papa Francisco ao país, em setembro de 2019, os desafios da ação evangelizadora na África e o crescimento das vocações no continente, que se deve, em grande parte, ao testemunho dos missionários.

Como foi para a Igreja em Moçambique receber a visita do Papa Francisco?

A viagem apostólica do Papa Francisco foi uma bênção para a Igreja de Moçambique e para o país em si. Já havia 31 anos que não recebíamos a visita de um Pontífice. A última vez foi em 1988, por São João Paulo II, cuja presença desencadeou, depois, na assinatura do acordo de paz [em 1992], que cessou aquela guerra absurda que havia. A presença do Santo Padre agora foi importante, pois, infelizmente, os conflitos voltaram e esperávamos que essa visita pudesse trazer um pouco de paz ao país. De fato, antes da chegada do Papa, as forças do governo e da oposição assinaram um terceiro acordo. A renovação espiritual que a presença de Francisco trouxe foi muito importante para os cristãos de Moçambique. Ele confirmou a caminhada que já estávamos percorrendo e indicou uma série de desafios para nós, a fim de que continuemos o nosso trabalho.

Quais seriam esses desafios?

São muitos. Um deles é o de sermos uma Igreja profética. Além de se preocupar com a evangelização, com a catequese, com a liturgia etc., a Igreja precisa ter uma voz que possa ajudar as pessoas a abrirem sua consciência, para que os cristãos tenham mais conhecimento da Doutrina Social da Igreja. Que as ajude a traduzir sua vida cristã em atitudes concretas que efetivem a implantação do Reino de Deus, mudem a sociedade.  Algo que também já estávamos tentando era nos reorganizar como Igreja em Moçambique. Por isso, estamos pensando em uma quarta assembleia nacional, possivelmente para 2021 ou 2022, para que possamos avaliar a caminhada e redimensionar a nossa ação pastoral e missionária.

Recentemente, o senhor tem denunciado uma série de ataques a comunidades. Como está a situação?

Na verdade, nós temos vivido essa realidade há dois anos e quatro meses e, infelizmente, os ataques continuam. Mesmo nesses dias que estou no Brasil, os missionários têm me reportado alguns casos. Nós não sabemos exatamente quem está por trás disso. Desconfiamos, porque lá temos grande reservas de recursos naturais, gás, petróleo, ouro, rubi, pedras semipreciosas, grafite, mármore… Isso atrai muitos interesses estrangeiros. Os países desenvolvidos têm grande interesse nos nossos recursos. E, como acontece em outras partes do mundo, a população local pouco aproveita isso. Pelo contrário, é, muitas vezes, expulsa de suas terras, não é indenizada devidamente. Isso acaba criando um círculo vicioso de miséria. Embora o governo mantenha as forças de defesa e segurança para “defender o povo”, a população já não confia nelas, tem medo dos ataques e, portanto, fica uma onda de insegurança, que tem causado grande sofrimento.

Não há indício de perseguição religiosa como tem acontecido em outros países da África?

Acredito que não. Nós temos um bom relacionamento com os muçulmanos, com os líderes religiosos. De fato, logo que começaram esses ataques, havia um grupinho extremista islâmico que estava junto, mas os próprios líderes muçulmanos se distanciaram disso e disseram: “Não são nossos e têm que ser tratados como criminosos”.  Portanto, não é um ataque aos cristãos, pois têm morrido católicos, evangélicos, muçulmanos, pessoas de religiões tradicionais. Então, em Moçambique, não é um ataque religioso. São ataques com outras intenções, que ainda é preciso apurar melhor.

Se as relações com os líderes religiosos são positivas, como é a relação da Igreja com as instituições civis?

Quando uma Igreja procura exercer o seu papel profético, essas relações são sempre muito delicadas. Temos um trabalho de muita cooperação com o governo, porque a Igreja está em várias áreas: educação, saúde, assistência social. Fazemos um trabalho muito humanitário e é, portanto, uma parceira do governo, pois a Igreja chega aonde muitas vezes o poder público não vai. Mas, ao mesmo tempo, é um trabalho delicado porque a Igreja, muitas vezes, coloca o dedo na ferida e, nem sempre, as autoridades gostam disso. Essa relação tensa entre Igreja e Estado culminou no fim do ano passado com certa perseguição. Jornais locais publicaram artigos denegrindo a minha imagem, levantando calúnias, para tentar intimidar a Igreja e dizer para ficarmos no nosso lugar. A reação foi imediata dos padres, religiosos e leigos da nossa diocese, assim como dos bispos do nosso país e do Brasil, que manifestaram apoio. Felizmente, isso passou.

Além dos missionários de fora, a Igreja em Moçambique conta com vocações locais?

Felizmente, temos tido muitas vocações. Mesmo havendo um sério processo de discernimento e seleção, existem muitas. Em 2019, a nossa diocese tinha 53 seminaristas, sendo 25 do propedêutico, um estágio inicial de três anos, 22 da filosofia e nove da teologia. Portanto, temos, graças a Deus, muitas vocações. As congregações religiosas femininas também têm tido muitas vocações. Em relação aos leigos, tem crescido muito a consciência do ser missionário e trabalhar pela transformação da sociedade. Ainda há muito medo no país por tudo o que já vivemos politicamente, mas já aparece no meio do povo lideranças que têm a coragem de falar, posicionar-se.

Na foto, Dom Luis Fernando sendo recebido em Mogi das Cruzes, em sua visita ao Presidente do Regional Sul 1, Dom Pedro

A que se deve esse crescimento vocacional?

A nossa diocese é relativamente jovem. Completamos 63 anos de existência. Esse crescimento vocacional é percebido nas 12 dioceses de Moçambique. Penso que o trabalho e a presença da Igreja na África como um todo, sobretudo por meio da educação, da saúde, do serviço da caridade, da própria evangelização, têm atraído as pessoas. O Papa Francisco tem dito que a nossa Igreja deve evangelizar as pessoas por atração. Percebo que isso tem acontecido. O trabalho abnegado de muitos missionários estrangeiros e também locais tem provocado isso. A juventude tem muita sede de Deus e procura a Igreja. Além disso, a população também tem percebido que a Igreja está ao seu lado, sobretudo os mais pobres. Há, portanto, um reconhecimento do trabalho realizado pela Igreja, que faz até com que muitas pessoas que praticavam outras religiões ou que não praticavam nenhuma têm se aproximado da Igreja e pedido para fazer parte dela.

Nesses anos todos como missionário, o que mais lhe chama a atenção no povo moçambicano?

Sempre me chamou muito a atenção que Moçambique e a África como um todo é muito jovem. A maioria da população é jovem. E a juventude tem muita sede de aprender. Tudo aquilo que propomos é sempre acolhido por muitos. Isso nos anima muito. Os missionários que chegam lá ficam encantados. As pessoas andam por quilômetros para participar de um encontro, de uma formação. É uma Igreja jovem, de um povo que tem sede de Deus e acabamos aprendendo muito com eles. Às vezes, nós complicamos tanto a vida e eles facilitam tudo. Têm tão pouco, mas dão da sua pobreza, ensinam com seu esforço, com a sua abnegação. Estão sempre prontos para receber e aprender.

A entrevista concedida ao jornalista Fernando Geronazzo, [email protected], pode ser conferida na íntegra  no O SÃO PAULO. Reproduzimos o texto, com autorização da jornal.

 

 

 

 

 

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