Artigos

Igreja e Sociedade – CF 2015

Irmãos e irmãs!

Com a Quaresma iniciamos a caminhada para a Páscoa, acontecimento central da vida cristã e ponto alto do ano litúrgico. Renova-se o apelo à conversão: “… Eis agora o tempo favorável por excelência. Eis agora o dia da salvação…” (2Cor 6, 2). Recordando os 40 anos do povo de Deus peregrino, no deserto, em busca da liberdade e da vida, e os 40 dias de Jesus no deserto, na intimidade com o Pai, acolhendo seu projeto, para realizá-lo com a entrega da vida até as últimas conseqüências, a Quaresma nos propõe a retomar o seguimento de Jesus, pautando nossas relações pela defesa dos valores que dignificam a vida. É o tempo de uma experiência mais viva no seu mistério pascal, “participação nos seus sofrimentos para participarmos também da sua glória” (Rm 8,17).

A constituição Sacrosanctum Concilium – a Sagrada Liturgia, pela qual o Concílio Vaticano II adentrou na Igreja, recomenda que na Quaresma os fiéis ouçam de modo novo a Palavra de Deus, se entreguem à penitência, à oração, preparando-se para viver com dignidade tão grande mistério. Lembra ainda a constituição que a penitência quaresmal não é algo meramente pessoal, individual, mas social, o que implica solidariedade com as necessidades do povo.

Com o evangelista Marcos contemplamos Jesus que, depois de ser declarado no batismo Filho amado do Pai, se dirige ao deserto e, pela força do Espírito, vence as tentações e assume o compromisso de aproximar o Reino de Deus de toda a humanidade. Com ele somos chamados a renovar nosso compromisso batismal testemunhando também nós o Reino já presente, expressando, pelo jejum, oração e esmola, nossa comunhão e comprometimento com os irmãos, preferencialmente os pobres e excluídos da sociedade.

No Brasil, a Quaresma e a Campanha da Fraternidade interagem aprofundando e favorecendo a vivência do Mistério Pascal. Com a Campanha da Fraternidade mergulhamos na realidade, nem sempre em sintonia com o projeto do Reino. Este ano, com o tema: “Fraternidade: Igreja e Sociedade”, e o lema: “Eu vim para servir” (Mc 10, 45), a Igreja deseja “aprofundar, à luz do Evangelho, o diálogo e a colaboração com a sociedade, propostos pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, como serviço ao povo brasileiro, para a edificação do Reino de Deus”.

Se evangelizar constitui a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade, como lembra a Exortação Apostólica do Beato Paulo VI sobre a Evangelização no Mundo Contemporâneo, o caminho já indicado pelo Vaticano II é o caminho do serviço – servir a Deus servindo o ser humano. “… É a pessoa humana que deve ser salva. É a sociedade humana que deve ser renovada. É, portanto, o homem considerado em sua unidade e totalidade, corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade…” (Constituição Conciliar Gaudium et Spes – sobre a Igreja no mundo, no 3).

Desde as origens, na época da cristandade, do Império e na República, não obstante os desafios nos campos econômico, social, político e religioso, com a colaboração dos missionários que chegavam, e também de leigos e leigas, a Igreja exerceu o seu importante papel evangelizador. “Os que aqui chegaram amaram e valorizaram a Terra de Santa Cruz e difundiram a idéia de que se tratava de um lugar de salvação” (Texto-base, no19).

Presente na sociedade, a Igreja tem como missão servir ao bem integral da pessoa. “A mensagem do Evangelho exige dos cristãos o direito e o dever de participar da vida da sociedade. Daí a importância do diálogo cooperativo fraterno e enriquecedor com a realidade social e as instâncias representativas da ordem social” (Texto-base no59).

Ser uma Igreja em saída – Igreja missionária e sem medo, como pede o Papa Francisco; atenta aos sinais dos tempos com especial atenção para com a família; solícita com as pessoas em situação de marginalização, exclusão e injustiça cujas vidas estão constantemente ameaçadas, assim como as que vivem na rua, vítimas do tráfico humano, grupos indígenas e outros; aberta às suas experiências religiosas e às dos outros; eliminando preconceitos de qualquer ordem, sobretudo religiosa; disposta a colaborar no fortalecimento da democracia de acordo com os preceitos institucionais, participando da reforma política, nunca alheia aos processos políticos da sociedade, é o que todos almejamos.

Pela graça de Deus, refletindo e rezando as relações entre a Igreja e a Sociedade, vivamos a Quaresma, lembrando-nos de que nosso compromisso começa com a comunhão e o fortalecimento dos laços comunitários.

Por Sérgio, Bispo Diocesano de Bragança Paulista

 

Adicionar Comentário

Clique aqui para comentar

Palavra do Presidente

NOVO ESTATUTO DA CNBB

Facebook

Assine nossa newsletter

Conheça nossos parceiros.