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Irmãos e irmãs!
Com a Quaresma iniciamos a caminhada para a Páscoa, acontecimento central da vida cristã e ponto alto do ano litúrgico. Renova-se o apelo à conversão: “… Eis agora o tempo favorável por excelência. Eis agora o dia da salvação…” (2Cor 6, 2). Recordando os 40 anos do povo de Deus peregrino, no deserto, em busca da liberdade e da vida, e os 40 dias de Jesus no deserto, na intimidade com o Pai, acolhendo seu projeto, para realizá-lo com a entrega da vida até as últimas conseqüências, a Quaresma nos propõe a retomar o seguimento de Jesus, pautando nossas relações pela defesa dos valores que dignificam a vida. É o tempo de uma experiência mais viva no seu mistério pascal, “participação nos seus sofrimentos para participarmos também da sua glória” (Rm 8,17).
A constituição Sacrosanctum Concilium – a Sagrada Liturgia, pela qual o Concílio Vaticano II adentrou na Igreja, recomenda que na Quaresma os fiéis ouçam de modo novo a Palavra de Deus, se entreguem à penitência, à oração, preparando-se para viver com dignidade tão grande mistério. Lembra ainda a constituição que a penitência quaresmal não é algo meramente pessoal, individual, mas social, o que implica solidariedade com as necessidades do povo.
Com o evangelista Marcos contemplamos Jesus que, depois de ser declarado no batismo Filho amado do Pai, se dirige ao deserto e, pela força do Espírito, vence as tentações e assume o compromisso de aproximar o Reino de Deus de toda a humanidade. Com ele somos chamados a renovar nosso compromisso batismal testemunhando também nós o Reino já presente, expressando, pelo jejum, oração e esmola, nossa comunhão e comprometimento com os irmãos, preferencialmente os pobres e excluídos da sociedade.
No Brasil, a Quaresma e a Campanha da Fraternidade interagem aprofundando e favorecendo a vivência do Mistério Pascal. Com a Campanha da Fraternidade mergulhamos na realidade, nem sempre em sintonia com o projeto do Reino. Este ano, com o tema: “Fraternidade: Igreja e Sociedade”, e o lema: “Eu vim para servir” (Mc 10, 45), a Igreja deseja “aprofundar, à luz do Evangelho, o diálogo e a colaboração com a sociedade, propostos pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, como serviço ao povo brasileiro, para a edificação do Reino de Deus”.
Se evangelizar constitui a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade, como lembra a Exortação Apostólica do Beato Paulo VI sobre a Evangelização no Mundo Contemporâneo, o caminho já indicado pelo Vaticano II é o caminho do serviço – servir a Deus servindo o ser humano. “… É a pessoa humana que deve ser salva. É a sociedade humana que deve ser renovada. É, portanto, o homem considerado em sua unidade e totalidade, corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade…” (Constituição Conciliar Gaudium et Spes – sobre a Igreja no mundo, no 3).
Desde as origens, na época da cristandade, do Império e na República, não obstante os desafios nos campos econômico, social, político e religioso, com a colaboração dos missionários que chegavam, e também de leigos e leigas, a Igreja exerceu o seu importante papel evangelizador. “Os que aqui chegaram amaram e valorizaram a Terra de Santa Cruz e difundiram a idéia de que se tratava de um lugar de salvação” (Texto-base, no19).
Presente na sociedade, a Igreja tem como missão servir ao bem integral da pessoa. “A mensagem do Evangelho exige dos cristãos o direito e o dever de participar da vida da sociedade. Daí a importância do diálogo cooperativo fraterno e enriquecedor com a realidade social e as instâncias representativas da ordem social” (Texto-base no59).
Ser uma Igreja em saída – Igreja missionária e sem medo, como pede o Papa Francisco; atenta aos sinais dos tempos com especial atenção para com a família; solícita com as pessoas em situação de marginalização, exclusão e injustiça cujas vidas estão constantemente ameaçadas, assim como as que vivem na rua, vítimas do tráfico humano, grupos indígenas e outros; aberta às suas experiências religiosas e às dos outros; eliminando preconceitos de qualquer ordem, sobretudo religiosa; disposta a colaborar no fortalecimento da democracia de acordo com os preceitos institucionais, participando da reforma política, nunca alheia aos processos políticos da sociedade, é o que todos almejamos.
Pela graça de Deus, refletindo e rezando as relações entre a Igreja e a Sociedade, vivamos a Quaresma, lembrando-nos de que nosso compromisso começa com a comunhão e o fortalecimento dos laços comunitários.
Por Sérgio, Bispo Diocesano de Bragança Paulista