Com a palavra o Presidente

Hoje, não fecheis o vosso coração!

Com o início da Quaresma, também começamos a preparar a Páscoa de 2015: é a celebração central e mais importante de nossa fé cristã e de todo o ano litúrgico.

Durante 40 dias, a Mãe-Igreja nos chama a fazer um intenso caminho de conversão a Deus, ouvindo atentamente a sua Palavra, fazendo penitência e dedicando-nos mais intensamente à oração e à pratica da caridade.

Na Quaresma, de fato, confrontamo-nos com o significado do nosso Batismo e com nossa condição de cristãos e filhos de Deus, recebida no Batismo. Vivemos bem a inestimável graça de sermos filhos e filhas de Deus? Crescemos na fé, recebida no Batismo, e fazemos frutificar esse dom, mediante as obras da fé?

A fé frutifica no “temor de Deus”, ou seja, no profundo respeito, adoração e obediência a Deus. A fé adulta e amadurecida se traduz na prática da religião, da vida moral coerente com o Evangelho de Cristo e das virtudes cristãs, sobretudo da caridade, esperança, justiça, honestidade e bondade.

Em vários momentos da Quaresma, a liturgia nos chama a “ouvir Deus”. Essa atitude fundamental é recordada com frequência pelos profetas: “hoje, não fecheis os vossos corações, mas ouvi a voz do Senhor” (cf Hb 3,7). Os profetas, e Jesus também, denunciaram com veemência o “coração de pedra”, a “cabeça dura”, o pescoço (cerviz) altivo (cf Êx 33,3; At 7,51), que não se dobra diante de Deus, mas se inclina aos ídolos, o fechamento e a rebeldia em relação a Deus…

Também nós podemos ser tentados de autossuficiência e de soberba; de nos fazer de surdos à voz de Deus e de desprezar os caminhos que ele nos mostra, para o nosso bem. É esta a tentação mais forte de homem, presente já no paraíso terrestre: “sereis como deuses” (cf Gn 3,5). E o tentador continua a convencer, como fez com Adão e Eva, que isso é possível…

Preferimos, nós mesmos, dar direção à nossa existência e ao convívio com os outros, sem levar Deus em consideração, nem seus mandamentos. A mesma atitude pode também levar a excluir Deus da nossa vida, ou a não nos importarmos com sua oferta de salvação e vida plena.

Agora, a Igreja nos recorda: “Oxalá, ouvísseis hoje a sua voz: não endureçais os vossos corações” (cf Sl 95,8). Com Jesus, Salvador, a misericórdia e o perdão de Deus tornam-se um perene “hoje” para quem o aceita: “procurai o Senhor, enquanto ele está perto…enquanto ele se deixa encontrar” (cf Is 55,6).

“Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação”, anunciava o profeta (Cf. 2 Cor 6,2). A Quaresma deste ano pode ser este “tempo favorável” para cada um de nós. Não endureçamos o nosso coração…

Artigo publicado no Jornal O SÃO PAULO – Edição 3039 – 19 a 24 de fevereiro de 2015

Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo e Presidente do Regional Sul 1 da CNBB

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