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Fé cristã e cultura Ocidental

Estamos chegando ao Natal deste ano de 2012. Foi um ano que nos apontou com insistência o Concílio Vaticano II.

A lembrança deste Concílio trouxe para a ordem do dia a história dos outros concílios, já realizados pela Igreja. Sobretudo os primeiros quatro, de Nicéia, de Constantinopla, de Éfeso e de Calcedônia.

Não é o caso aqui de tecer considerações sobre o conteúdo destes quatro primeiros concílios, que definiram o credo cristão, e formataram a configuração histórica da Igreja.

O que mais desperta a atenção é a brusca mudança de atitude do Império Romano diante da nova religião, que estava surgindo sem quase nenhuma estrutura social de apoio.

Até o ano de 313, quando foi publicado o “Edito de Milão” , garantindo liberdade de culto para todas as religiões, a religião cristã era considerada como uma seita, e como tal, ilegal, coibida e perseguida pelo poder público.

Poucos anos depois, em 325, a fé cristã já não era mais perseguida. Ao contrário, tinha caído na benevolência do Imperador Constantino, que por conta própria teve a iniciativa de convocar o Concílio de Nicéia, e de presidi-lo na frente de todos os bispos.

Olhada sob o ângulo político, a repentina mudança de postura diante da nova religião configurava uma estratégia por parte do Império. A nova religião já não era vista como inimiga da ordem imperial, mas como aliada. Melhor ainda, serviria de instrumento para a unificação do Império Romano, que já começava a mostrar suas primeiras fraturas. sobretudo em sua parte ocidental, longe da nova capital, Constantinopla.

A partir daí verificou-se um fenômeno surpreendente. Em poucos séculos, a frágil “seita” cristã, tinha se tornado a religião assumida na prática pelos habitantes do antigo império romano. Isto permitiu que ela fosse se estruturando, com seu aparato oficial de Igreja, ocupando o espaço que o poder civil lhe assegurava, e inclusive lhe confiava.

Este fato, amplo e complexo em suas circunstâncias históricas, permite, em todo o caso, entender um longo trajeto da história do Ocidente, onde a religião cristã passou a ser a única  existente.

Este período histórico já se esgotou. A cultura ocidental já há muito tempo vem reivindicando sua plena autonomia diante da religião, em especial a cristã.

Neste contexto se entendem algumas reações extremadas, que demonstram  insegurança diante de um fenômeno que ainda não esgotou seu dinamismo.

As circunstâncias histórias proporcionaram para a fé cristã  tempos de perseguição, e tempos de bonança.  Podem mudar as circunstâncias. Mas a vitalidade cristã é endógena, não depende de circunstâncias externas. Com ventos favoráveis ou contrários, a fé cristã é portadora de uma mensagem eficaz, que não se impõe pela força externa, mas por sua própria consistência interna.

Se a cultura predominante quiser, por exemplo, esvaziar o Natal do seu significado religioso, e reduzi-lo a mera  festividade civil, a fé cristã continuará seu dinamismo.

Mesmo que o homem de hoje queira rejeitar a religião, ele não se exclui dos destinatários da mensagem cristã, que propõe amar toda pessoa humana, independente do seu posicionamento religioso.

Esta a originalidade de Jesus de Nazaré, nascido em Belém, em pleno império romano, conforme relatam os Evangelhos.

D. Demétrio Valentini, Bispo de Jales

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