Com a palavra o Presidente

Eles nos deram as primícias da fé

Acabamos de celebrar a solenidade dos apóstolos Pedro e Paulo. Nas tradições religiosas e culturais populares (mais culturais que religiosas!), procura-se saber logo qual é a “especialidade” de cada santo: protetor dos pescadores, dos comerciantes, dos milagres urgentes, das causas perdidas, contra mordida de cobra… Será que é mesmo esse o significado que a Igreja Católica dá aos santos?

Partindo da fé da Igreja, constatamos que, antes de tudo, os santos foram pessoas reais e históricas; não são mitos da fantasia popular, nem devemos transformá-los em mitos. Eles foram os grandes cristãos e os discípulos excelsos, muitas vezes até heroicos, de Cristo. Por isso, é muito aconselhado conhecer a história e a vida dos santos, para aprender dos exemplos que deixaram. Na orientação da Igreja, a melhor devoção aos santos consiste na imitação de seus exemplos e virtudes.

São Pedro e São Paulo são os dois grandes apóstolos referenciais do início da vida da Igreja. Como a Igreja proclama na Liturgia, “Pedro, o primeiro a proclamar a fé, fundou a Igreja sobre a herança de Israel. Paulo anunciou aos pagãos o Evangelho da salvação” (Prefácio da Solenidade). Sua memória é especialmente venerada em Roma, onde os dois sofreram o martírio e onde também são venerados os seus túmulos até hoje.

Ao longo de toda a história da Igreja, conservou-se ininterrupta a tradição das peregrinações aos túmulos dessas duas “colunas da Igreja”, que anunciaram e testemunharam, de modos diversos, o único Evangelho da salvação por Jesus Cristo. Nem sempre é lembrado que, na festa de São Pedro e São Paulo, a Igreja celebra o martírio deles; derramando seu sangue por amor a Cristo e em favor do Evangelho da fé, eles deram o supremo testemunho da fé, que anunciaram e zelaram com tanto ardor.

No Ano da Fé, tem um significado especial a expressão bonita que a Liturgia emprega na festa dos dois apóstolos: “Concedei à vossa Igreja seguir em tudo os ensinamentos desses apóstolos, que nos deram as primícias da fé” (Oração do Dia). As primícias são os primeiros frutos: as conversões, os Batismos, os primeiros testemunhos de vida cristã das comunidades cristãs das origens e também os primeiros martírios na vida da Igreja, conforme lemos nos Atos dos Apóstolos.

Depois da pregação deles, junto com a dos demais apóstolos, a Igreja procurou permanecer sempre fiel ao “ensinamento dos apóstolos”; em todos os momentos de crise, de pregações suspeitas, de falsidade ou de dúvidas quanto à veracidade dos ensinamentos, a Igreja, através dos Concílios ou do ensinamento dos papas e dos bispos, sempre voltou a fazer referência àquilo que os apóstolos haviam ensinado e transmitido; se estava em conformidade com o ensinamento dos Apóstolos, a doutrina era tida como segura; caso contrário, o ensinamento não era autêntico e tido como um desvio em relação à fé da Igreja.

Isso começou muito cedo, ainda com os apóstolos. O próprio Paulo fez questão de confrontar o seu ensinamento com o de Pedro e dos outros apóstolos, para ver se devia corrigir alguma coisa; depois, empregou uma expressão que diz bem o que significa a “tradição de fé” da Igreja: “Eu vos transmiti, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo havia recebido…” (cf. 1Cor 15,3-50). A Igreja não inventa sua fé nem as verdades da fé, mas acolhe a fé como dom e como resposta à Palavra de Deus e ao testemunho dos apóstolos; e continua a transmitir essa mesma fé aos outros. Assim deve acontecer ainda hoje.

No Ano da Fé, somos convidados a renovar a consciência da nossa fé e a professá-la com mais firmeza e ardor. É fundamental lembrar que nós cremos pessoalmente, mas não apenas individualmente; cremos com a Igreja e como a Igreja crê. Cremos com os apóstolos e, por isso mesmo, nossa fé é dita “apostólica”. Cabe a nós e à Igreja apresentar e testemunhar, de muitas maneiras atualizadas e contemporâneas, esse único e perene patrimônio da fé apostólica, do qual a Igreja é guardiã e transmissora.

São Pedro e São Paulo são também comparados a duas oliveiras bem antigas, cheias de vitalidade, com raízes profundas; sempre de novo, elas rebrotam e trazem frutos. A Jornada Mundial da Juventude é um momento privilegiado para fazer reflorir essas antigas e robustas oliveiras na fé acolhida e testemunhada pelas jovens gerações…

Publicado em O SÃO PAULO, ed. de 25.06.2013

Adicionar Comentário

Clique aqui para comentar

Palavra do Presidente

NOVO ESTATUTO DA CNBB

Facebook

Assine nossa newsletter

Conheça nossos parceiros.