Coronavírus Destaques Especial

Doações são indispensáveis para as ações da Igreja em favor das pessoas em situação de rua

Espaços de acolhida da Arquidiocese de São Paulo. Luciney Martins/O São PAULO

Casa de Oração do Povo da Rua, Missão Belém e Arsenal da Esperança são algumas das instituições ligadas à Arquidiocese de São Paulo que dependem da solidariedade para manter projetos

Os comércios fecharam, boa parte das empresas mantém os funcionários em regime de trabalho home-office, mas, para os que não têm teto, a rua continua sendo a única morada. E neste tempo de quarentena, com menos pessoas circulando pelas ruas, conseguir um prato de comida ou uma esmola para comprar algum alimento ficou quase impossível.

Em mensagens e homilias, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, tem insistido que neste período, em que também as igrejas católicas estão fechadas para evitar a proliferação do novo coronavírus, os cristãos não abandonem os mais pobres e doentes. É isso que têm feito, por exemplo, a Casa de Oração do Povo da Rua, mantida pela Arquidiocese; a Missão Belém e o Arsenal da Esperança.

Na sexta-feira, 27, a reportagem do O SÃO PAULO visitou esses três locais e constatou que, sem a continuidade do envio de doações para estas instituições, será cada vez mais difícil garantir o socorro às pessoas em situação de rua.

NA CASA DE ORAÇÃO: REFEIÇÃO E KITS DE HIGIENE

Devidamente espaçadas para a evitar a proliferação do novo coronavírus, as mesas montadas para o café da manhã na Casa de Oração do Povo da Rua, no bairro da Luz, estavam todas ocupadas naquela manhã.

Para Luiz Carlos Pereira, uma das mais de 90 pessoas em situação de rua que tomavam café da manhã no local, aquela era a única refeição assegurada do dia. “Cortaram a alimentação que a gente recebia de doações na rua, e a gente precisa se alimentar de algum jeito. Talvez até dê para conseguir alguma refeição agora de dia, mais de noite não. O pessoal que fazia doação à noite não está vindo mais para as ruas do Centro. É uma situação torturante. A gente já não tem emprego nem moradia e agora vem o coronavírus”, disse à reportagem.

Pereira contou que não tem encontrado sabão para lavar as mãos, exceto nos terminais de ônibus. Essa também foi a realidade descrita por José da Silva: “Só vejo álcool em gel aqui na Casa de Oração. Na rua está complicado, com tudo fechado agora, fica difícil para a gente; arrumar dinheiro também está complicado. Se não fosse a Casa de Oração estaria ainda mais difícil para a gente”.

Para evitar aglomerações, as pessoas permanecem no local apenas durante o horário do café, porém ao saírem recebem um kit de higiene pessoal, com sabonete, creme e escova dental e aparelho de barbear, além de uma flanela de TNT e um pedaço de sabão de coco.

Nas paredes da Casa de Oração, há muitos cartazes que informam sobre a importância da lavagem das mãos e do uso do álcool em gel neste período. Também alguns agentes do consultório na rua do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto (Bompar), instituição vinculada à Igreja Católica, orienta as pessoas sobre a forma correta de higienização das mãos.

Urgência de doações

“Tem aumentado todos os dias o número de pessoas que têm procurado ajuda aqui. Não temos dado conta de entregar os kits de higiene, precisamos quase fazer um ‘milagre’ com o pouco que há de álcool em gel, mas estamos distribuindo muito sabão e detergente que também matam o vírus”, afirmou Ana Maria Alexandre, uma das responsáveis pelos trabalhos na Casa de Oração.

De acordo com Ana Maria, antes da pandemia de COVID-19 também era servido almoço para cerca de 70 pessoas no local, mas para evitar as aglomerações, agora estão sendo feitas entre 150 e 250 marmitex diárias, que são distribuídas para pessoas em situação de rua na Cracolândia, no Brás e outros locais onde mais seja preciso.

Diante do aumento da demanda de atendimentos, a Casa de Oração do Povo da Rua precisa de doações, especialmente de alimentos para fazer as marmitas – “de preferência, daqueles que deem sustância para eles, como carne e frango, porque essas pessoas precisam aumentar a imunidade”, diz Ana Maria – e de itens para higienização, como álcool em gel, álcool líquido 70%, cloro e detergente, além de luvas e máscaras. “Se não houver higienização do chão e das mesas e alguém estiver com o vírus, acaba passando para outra pessoa”, lembra Ana Maria.

A Arquidiocese de São Paulo já colocou a Casa de Oração do Povo da Rua à disposição das autoridades para que abrigue, em quarentena, pessoas com a COVID-19, mas por enquanto o espaço não foi usado para tal.

Doações à Casa de Oração do Povo da Rua podem ser entregues diretamente no local – Rua Djalma Dutra, 03, Luz – ou feitas por meio de depósito bancário: Banco Bradesco – Ag: 0124 – CC: 0053148-0. Outras informações podem ser obtidas pelos telefones (11) 3228-6223 e (11) 99427-9070, com Ana Maria.  (DG)

 

MISSÃO BELÉM: PARA QUE A RESTAURAÇÃO DE VIDAS CONTINUE

Fundada há 15 anos, a Missão Belém tem em São Paulo a missão de resgatar a vida daqueles que se perderam nos vícios do álcool e das drogas e vivem pelas ruas da maior metrópole do país.

Muitos dos que aceitam iniciar este caminho de mudança de vida passam cerca de sete dias em um retiro de espiritualidade no Edifício Nazaré, na Praça da Sé, antes de serem encaminhados para um dos sítios da Missão Belém no interior do estado de São Paulo.

No entanto, o avanço do novo coronavírus pelo Brasil mudou um pouco a rotina de atividades no edifício de 11 andares.

“Diante dessa situação de pandemia, os sítios estão em quarentena com aqueles que já vivem neles. Foi uma medida para não haver riscos de infecção. Se continuássemos acolhendo todo mundo, uma hora ia superlotar; então, preferimos acolher agora só os mais debilitados da rua, os mais doentes. Estamos indo todos os dias para a rua para procurar aqueles que estão doentes – diabéticos, hipertensos, pessoas com HIV, sífilis, tuberculose – além de cadeirantes”, explicou Caio Ferreira, responsável pela comunicação da Missão Belém.

Atualmente, há aproximadamente 70 acolhidos no Edifício Nazaré e ainda restam 30 camas vazias. “Por isso, ainda estamos indo à rua procurar esses doentes para trazer para casa”, complementou Caio.

Plena atenção aos acolhidos

Todo acolhido que chega ao edifício é recebido por um grupo de outros irmãos que tira dúvidas e lhes dá suporte. Há também atenção médica para os doentes. No momento da visita da reportagem, equipes de saúde, formadas por voluntários e membros da Missão Belém, conversavam com os acolhidos individualmente para saber sobre suas condições clínicas.

Claudionor Bento da Silva, 49, chegou à Missão Belém em 16 de março em estado de drogadição (dependência física e psíquica de drogas). Seguindo um itinerário de orações e cumprimento de propósitos diários, além de ter alimentação, uma rotina de sono e cuidados de higiene, ele já se diz revigorado. “Na rua não tem como se cuidar. O negócio é tomar cachaça e, para quem gosta de usar crack, usar. Com álcool e droga na cabeça, você acha que a doença nunca vai pegar você”, conta o homem que hoje auxilia na lavanderia da Missão Belém.

Sebastião Mendes Martins, 59, está na Missão há dois anos e meio. “Graças à Missão, consegui sair da rua. Dou esperança para minha família, estou mudando de vida e larguei as drogas. Falo para os irmãos que assim como eu consegui mudar, eles também podem mudar. Eu aconselho que mudem de vida”, afirmou.

Todas as atividades da Missão Belém são mantidas com doações de pessoas e de algumas instituições. “Temos recebido doações, mas há itens que acabam rápido: luvas, álcool em gel, produtos de limpeza e de higiene pessoal. Por exemplo, escova de dente está em uma urgência muito grande. Alimentos também, principalmente carne e frango. Também precisaremos de ajuda financeira, porque as contas de água, luz, gás vão dobrar”, explicou Caio Ferreira.

Um dos exemplos desse aumento de gastos é com a higienização do local: banheiros e corrimãos têm sido limpos com maior frequência do que antes para evitar que alguém seja infectado com o novo coronavírus. As maiores urgências desses itens são de papel higiênico, hipoclorito, desinfetante e sabão em pó.

Os interessados em colaborar com a Missão Belém podem entrar em contato pelo telefone (11) 93459-8191 (com Caio Ferreira), pelo e-mail [email protected] ou entregar os itens diretamente no Edifício Nazaré (Praça da Sé, 47). Há ainda a possibilidade de doações on-line em www.missaobelem.org/doacao ou por conta bancária: Banco Itaú (Ag: 2866 – CC: 02440-5), Banco Bradesco (Ag: 1749-3 – CC: 12868-6), para a Associação Menino Jesus – Missão Belém – CNPJ 11.413.244/0001-12 (DG)

 

EM QUARENTENA, ARSENAL DA ESPERANÇA DOBRA SUA DEMANDA DE ALIMENTOS

Instituição que acolhe diariamente cerca de 1.200 homens em situação de rua, o Arsenal da Esperança, na Mooca, também teve sua rotina alterada por causa da pandemia da COVID-19.

Na porta da instituição foi afixado um cartaz informando que não há mais vagas para pernoite. Na verdade, desde segunda-feira, 23, o Arsenal entrou em quarentena. “Não autorizamos mais a entrada de novos acolhidos e aqueles que ingressaram não podem sair durante esse período e caso saiam, não podem mais retornar”, explicou o Padre Simone Bernardi, um dos missionários da Fraternidade Esperança, mantenedora da instituição.

Essa medida visa à proteção dos cerca de mil acolhidos, impedindo que eles tenham contato com o novo coronavírus. “Nós intensificamos os cuidados com a higiene do ambiente e também orientamos os atendidos a seguirem as medidas preventivas recomendadas pelas autoridades de saúde, acrescentou o Missionário. Constantemente, os acolhidos recebem orientações preventivas sobre o cuidado com a higiene pessoal.

Os missionários também estão providenciando uma área reservada da hospedaria para ser feito o isolamento daqueles que eventualmente forem infectados pelo vírus. No entanto, Padre Simone não esconde a preocupação, pois sabe que o espaço é insuficiente para o número de doentes que pode haver. “Nesse espaço reservado, nós temos dez quartos onde, normalmente, dormem de sete a oito pessoas em cada quarto. No entanto, para o isolamento recomendado, esse número de pessoas não seria possível”, disse.

Abastecimento

Outra grande preocupação dos responsáveis pelo Arsenal é com o abastecimento de alimentos e produtos de higiene pessoal. Antes, a maioria dos acolhidos apenas pernoitava na instituição e, durante o dia, saíam a procura de algum trabalho. Agora que estão permanentemente na casa, o impacto é maior. “Todos esses acolhidos tomavam café e jantavam aqui. Agora, todos eles também almoçam”, explicou o Padre.

Se antes eram consumidos 220 kg de arroz por dia, hoje essa quantidade dobrou, assim como o uso da água e da energia elétrica. “Nós estamos apenas no quarto dia de quarentena e precisamos rezar muito, pois estamos navegando no escuro, não sabemos até quando vai durar isso e até quando teremos condições de realizar esse trabalho”.

Por isso, o Arsenal da Esperança lançou um apelo nas redes sociais para que as pessoas ajudem a instituição a continuar o seu trabalho, seja por meio do envio de alimentos não perecíveis, produtos de limpeza e de higiene pessoal.

Refúgio e proteção

Márcio José da Silva, 55, frequenta o Arsenal há 11 meses. Para ele, ter um lugar para se abrigar nesse período de risco é fundamental. “Na rua, é impossível se proteger da doença. Não há como se prevenir, manter a higiene e nem como se alimentar”, afirmou.

Júlio José Muniz, 35, encontrou no Arsenal não apenas um lugar para se proteger do coronavírus, mas também para alimentar a fé e enfrentar esses tempos difíceis. “Não há mais trabalhos nas ruas, nem perspectivas de quando a situação vai se normalizar. Aqui eu tenho um abrigo, alimentação e segurança, inclusive para a minha saúde”, relatou.

No entanto, Júlio afirma que ainda há muitos amigos seus que não têm um abrigo e estão expostos aos riscos. “Há um clima de insegurança muito grande na rua, pois ninguém sabe para onde ir para evitar o contágio ou onde buscar ajuda caso fique doente. É uma situação muito difícil”, concluiu.

Caridade fraterna

Padre Simone enfatizou que essa é uma ocasião para os muitos grupos e instituições que já realizam trabalhos voltados ao povo da rua possam se articular. “Há muitos grupos de paróquias e comunidades que costumam ir às ruas para levar refeições à população de rua. Porém, como são orientados a ficar em casa, eles não podem mais realizar esse trabalho, até para também não correrem riscos de contágio. Esses grupos, contudo, podem auxiliar não somente a nós, no Arsenal, mas a tantas outras instituições que continuam realizando seu trabalho”, ressaltou.

O missionário também recordou que não apenas a população de rua merece atenção, mas também as famílias carentes que vivem nos cortiços ou em moradias populares, que dependem de trabalhos informais para sobreviver e no cenário atual sofrem sem ter como se sustentar.

“Vemos o quanto as paróquias estão se mobilizando para se manter vivas ao transmitir suas celebrações e atividades. Isso é muito bonito. No entanto, também precisamos continuar mantendo o serviço da caridade. Por isso, peço que, nas missas, não deixem de incentivar as pessoas a ajudar, a não se esquecer dos pobres de sua comunidade”, pediu o Missionário.

As doações ao Arsenal da Esperança podem ser entregues diretamente no local – Rua Almeida Lima, 900, Mooca – ou por meio de depósito bancário – Banco Santander, Ag: 0144 – Conta: 13-003147-6 – CNPJ: 62.459.409/0001-28 (FG)

Com informações da Arquidiocese de São Paulo

 

Palavra do Presidente

NOVO ESTATUTO DA CNBB

Facebook

Assine nossa newsletter

Conheça nossos parceiros.