Com a palavra o Presidente

Deus, rico em misericórdia: Ano Santo extraordinário

O Papa Francisco vinha falando da misericórdia de Deus desde o início de seu pontificado, há dois anos: “Deus não se cansa de perdoar”. Seu lema episcopal é miserando atque eligendo – “tendo misericórdia dele, também o escolheu”. Na sua recente Mensagem para a Quaresma, ele convidou a não fazer a “globalização da indiferença” e a superar a insensibilidade diante dos sofrimentos do próximo.

A misericórdia, exercida de muitas maneiras, é característica essencial da vida cristã, pois Deus é misericordioso. Na mesma Mensagem, ele pediu que, entre 13 a 14 de março, fossem dedicadas “24 horas para o Senhor” na oração, penitência e em ações concretas em favor da paz e da reconciliação. No dia 13 de março, completou-se o 2º aniversário de sua eleição.

O Papa, que convidou várias vezes a “deixar-se surpreender por Deus”, surpreendeu a todos com o anúncio do Ano Santo extraordinário da Misericórdia, a ser aberto no dia 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição de Maria. Justamente. Francisco, interpretado por muitos, como “o Papa da reforma da Igreja”, deu a entender que a reforma prioritária é a interior, que não decorre da mudança de estruturas formais e burocráticas.

Desde logo, é possível interpretar nesse anúncio vários simbolismos, que apontam para os principais objetivos do Ano Santo extraordinário. Cada um de nós, e a Igreja inteira, precisa renovar-se a partir da abertura à misericórdia divina. A Igreja, acima de tudo, é obra da graça e da misericórdia de Deus e não de convenções e decisões humanas: ”por causa do grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos por causa das nossas faltas, Deus nos deu a vida com Cristo. É por graça que vós fostes salvos” (Ef. 2,4s). O Jubileu é proposto como um “tempo favorável” para essa renovação.

O anúncio, feito no 2º aniversário de sua eleição, indica que este é um dos grandes desejos deste Papa para a Igreja: a busca do perdão e da reconciliação, deixando-se envolver pela misericórdia divina. O anúncio foi feito durante uma celebração penitencial na basílica de São Pedro, quando o próprio Papa se fez, primeiro, penitente e, em seguida, confessor, indo ao confessionário para atender às confissões e administrar o perdão sacramental.  Francisco indica, assim, que uma das marcas deste Ano Santo extraordinário deverá ser a busca da reconciliação com Deus e com o próximo, condição para se ter a verdadeira paz: “em nome de Cristo, rogamos: reconciliai-vos com Deus!” (cf 2 Cor. 5,20). O mundo precisa de paz, reconciliação e perdão. A revalorização do Sacramento da Reconciliação e do Perdão faz parte das grandes metas deste Ano Santo.

A misericórdia precisa ser acolhida como um dom de Deus, “rico em misericórdia” (cf Ef. 2,4); mas também deve ser uma característica constante da vida cristã: “sede misericordiosos, como vosso Pai celeste é misericordioso” (Lc. 6,36). Falamos pouco das “obras de misericórdia” e corremos o risco de reduzir a vida cristã a manifestações rituais e pregações moralistas, ou de transformá-la num motivação ideológica desvinculada da realidade prática.

As “obras de misericórdia”, que a Igreja ensina a praticar, são ações concretas, orientadas para pessoas reais, que nosso coração acolhe em suas necessidades também concretas: fome, sede, frio, doença, prisão, sem casa, sem roupa, vivendo na aflição, na dor e no luto… Jesus fala dessas ações no contexto do grande julgamento final (cf Mt. 25). O Jubileu anunciado deverá reavivar a prática das obras de misericórdia.

Enfim, a abertura do Ano Santo extraordinário acontecerá no dia 8 de dezembro, no 50º aniversário do encerramento do Concílio Ecumênico Vaticano II: o grande Concílio continua a nos convidar para ir ao coração do Evangelho: a misericórdia divina. “misericórdia eu quero, e não sacrifícios” (cf Mt. 9,13). E a vivê-la na prática eclesial e pessoal: “bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia” (cf Mt.5,7).

Artigo publicado no Jornal O SÃO PAULO – Edição 3043 – 18  a 24 de março de 2015

Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo e Presidente do Regional Sul 1 da CNBB

Adicionar Comentário

Clique aqui para comentar

Palavra do Presidente

NOVO ESTATUTO DA CNBB

Facebook

Assine nossa newsletter

Conheça nossos parceiros.