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Crer em que Deus?

Diante das ideologias  que negam ou desfiguram a imagem de Deus importa  refletir um pouco sobre quem é o Deus de Jesus Cristo. Partindo da centralidade de Cristo no contexto da Conferência do CELAM, Bento XVI levantava a pergunta:“esta prioridade, não poderia por acaso ser uma fuga no intimismo, no individualismo religioso, um abandono da realidade urgente dos grandes problemas econômicos, sociais e políticos da América Latina e do mundo, e uma fuga da realidade para um mundo espiritual?” E continua: “como primeiro passo, podemos responder a esta pergunta com outra: O que é esta ‘realidade’? O que é o real? São ‘realidades’ somente os bens materiais, os problemas sociais, econômicos e políticos? Aqui está precisamente o grande erro das tendências predominantes no último século, erro destruidor, como demonstram os resultados tanto dos sistemas marxistas como também dos capitalistas.

Falsificam o conceito de realidade com a deturpação da realidade fundante e por isso decisiva, que é Deus. Quem exclui Deus do seu horizonte falsifica o conceito de “realidade” e, por conseguinte, só pode terminar por caminhos equivocados e com receitas destruidoras. A primeira afirmação fundamental é, pois, a seguinte: somente quem reconhece Deus, conhece a realidade e pode corresponder-lhe de modo adequado e realmente humano. A verdade desta tese resulta evidente diante do fracasso de todos os sistemas que põem Deus entre parênteses.

Contudo, surge imediatamente outra pergunta: Quem conhece Deus? Como podemos conhecê-lo? Não podemos entrar aqui num debate complexo sobre esta questão fundamental. Para o cristão, o núcleo da resposta é simples: somente Deus conhece Deus, somente o seu Filho, que é Deus de Deus verdadeiro, O conhece. E Ele, ‘que está no seio do Pai, O deu a conhecer’ (Jo 1, 18). Daqui a importância singular e insubstituível de Cristo para nós, para a humanidade. Se não conhecemos a Deus em Cristo e com Cristo, toda a realidade se transforma num enigma indecifrável; não há caminho e, não havendo caminho, não há vida nem verdade.

Deus é a realidade instituinte, não um Deus apenas pensado ou hipotético, mas o Deus com um rosto humano; é o Deus-conosco, o Deus do amor até à cruz. Quando o discípulo chega à compreensão deste amor de Cristo ‘até ao extremo’ não pode deixar de responder a este amor, a não ser com um amor semelhante: ‘Seguir-te-ei para onde quer que fores’ ” (Lc 9, 57).

O Deus-Trindade nos criou à sua imagem e semelhança e revela para nós que unicamente na abertura ao outro seremos de fato plenamente pessoas. Pela encarnação de seu Filho Deus se mostra tomado de amor por nós e se faz participante de nossa vida, redentor e construtor primeiro de nossa história. E nos convida a ser plenamente humanos, acolhendo a comunicação de seu amor, o Espírito Santo, e amando como Ele amou.

Acolher Jesus Cristo, deixar que Ele se torne de fato nosso caminho, reconhecê-lo como verdade e vida, nos impele a romper o círculo fechado de nosso eu para viver o ser-para-os-outros na força do Espírito Santo. Se essa verdade penetrar toda a nossa vida, seremos, na força do amor, praticantes da justiça, portadores da paz, construtores de um mundo fraterno. Imaginemos todos os seres humanos empenhados em viver a dinâmica do “amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei” na família, no trabalho, na escola, na política, em todas as dimensões da existência, e vislumbraremos o paraíso proclamado no Apocalipse de São João (cf. 21,1ss.) e pela segunda carta de São Pedro: “O que nós esperamos, conforme sua promessa, são novos céus e nova terra, onde habitará a justiça”(3,13).

Mas, dirá o(a) leitor(a), esta é uma esperança para o depois e nós queremos um mundo novo agora. Então comecemos agora, todos, a viver centrados em Deus, no Deus que nos ensina a oferecer a vida pelos irmãos. O mundo novo possível não se impõe. As leis são necessárias para indicar o caminho da justiça e para coibir os egoísmos de pessoas e de grupos. Mas as leis não transformam o coração das pessoas. Gosto de repetir a afirmação de Bento XVI: “uma sociedade em que Deus está ausente não encontra consenso necessário sobre os valores morais e a força para viver segundo esses valores, mesmo contra os próprios interesses”.

Encontrar a plenitude da verdade sem Deus não é possível e muito menos decidir-se a viver dela. A revelação cristã, ao nos colocar em contato com a verdade de Deus – o Verbo feito Carne –, ilumina nossa vida e abre-nos o caminho para o conhecimento e a vivência dos valores que devem presidir a vida da sociedade. Entretanto, sem a adesão sincera e o empenho de todos em viver esses valores, a encarnação do Verbo, Caminho, Verdade e Vida, não poderá florescer plenamente no coração da história humana. Donde a urgência sempre atual de testemunhar e proclamar o evangelho de Jesus Cristo a todas as criaturas.

Por Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues, Arcebispo de Sorocaba (SP)

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