Artigos

Comunhão, testemunho, missão: que Igreja para o século XXI?

“Que Igreja para o Século XXI”? Um tema instigante porque pressupõe, em sua mesma formulação, que as mudanças na história exigem mudanças na Igreja. Como estamos não apenas em uma época de mudanças, mas numa mudança de época, poderíamos inferir que não se trata de mudanças na Igreja, mas de mudança da Igreja(!).Não será que a mudança de época, em tempos de retorno do darwinismo, não nos permitiria até mesmo chegar a afirmação de uma possível mutação na espécie humana? Nietszche não chegou a sonhar com o super-homem? O homem livre de todas as amarras, absolutamente solto na espontaneidade da Vida? O marxismo não alimentou a utopia de um homem novo, concretizado na comunhão de uma sociedade sem classes? Que mudanças são essas a exigirem da Igreja um jeito novo de ser de modo que possa sobreviver e cumprir sua missão em um mundo que descarta impiedosamente os valores que plasmaram a história do ocidente cristão?

O Concílio Vat. II foi convocado por João XXIII, para retomar e “transmitir a doutrina pura e íntegra sem atenuações nem desvios”. Este transmitir implica compreender o tempo da história no qual a Igreja vive e atua: “O nosso dever não é somente guardar este tesouro precioso, como se nos preocupássemos unicamente pela antiguidade, mas dedicar-nos com diligente vontade e sem temor a esta obra, que a nossa época exige… É necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e apresentada de modo que corresponda às exigências do nosso tempo. De fato, uma coisa é o depósito da fé, isto é, as verdades contidas na nossa veneranda doutrina, e outra coisa é o modo com o qual elas são enunciadas, conservando nelas, porém, o mesmo sentido e o mesmo resultado”. O ensinamento e as propostas do Vat. II são suficientes para garantir que a barca de Pedro atravesse o sec. XXI lançando com eficácia as redes da palavra para o milagre da pesca? Que caminhos nesse pós-concílio a Igreja percorreu e que perspectivas se abrem para o fiel cumprimento da missão, que lhe foi dada por Jesus, nesse início de Milênio? Que rumos pretendeu o Papa João Paulo II, durante seu longo pontificado, indicar para a Igreja? Qual a proposta de Bento XVI? O que significaram as Conferências do CELAM no pós-concílio? Em especial, qual a importância da Quinta Conferência do Episcopado Latino-Americano e Caribenho? E as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil? Como se pode ver, cada pergunta dessas merece uma séria pesquisa e aprofundada reflexão. Evidentemente não tenho a pretensão de responder a tantas interrogações. O tema, sobre o qual devo discorrer pede-me apenas dizer alguma coisa sobre como a Igreja-Koinonia (comunhão) pode testemunhar e anunciar Jesus Cristo no século que se inicia. Antes de abordar o assunto, permito-me reportar um fato narrado pelo Cardeal Ratzinger na Conferência que fez, no ano 2.000, sobre a eclesiologia da LG, em Congresso Internacional de avaliação da aplicação do Vat. II. Disse ele que os bispos alemães, preparando-se para o Concílio eram unânimes, por diversas razões, em afirmar que a Igreja deveria ser o tema central. Foi quando o Mons. Buchberger, de Ratsbona, autor do “Lexicon für Theologie und Kirche” em dez volumes, fez a seguinte intervenção: “Queridos irmãos, no Concilio antes de tudo deveis falar de Deus. Este é o tema mais importante”. Os bispos ficaram impressionados com a profundidade dessas palavras”.    Mas, não é verdade que a teologia só o é porque e quando fala de Deus, mesmo falando de outras realidades? Não é por acaso que o Papa Bento XVI em seu pontificado já nos brindou com três encíclicas que colocam em pauta as três virtudes teologais. Nessa linha quero nesta reflexão valer-me da compreensão da Igreja como sacramento, pois a igreja prolonga no tempo, pela ação do Espírito Santo, a presença do mistério de Deus revelado, no Espírito, pelo Verbo Encarnado. Falar, pois, da Igreja é falar de Deus.

A Igreja – Sacramento

Em conformidade com o ensinamento do Concílio o documento de Aparecida afirma: “Os discípulos de Jesus são chamados a viver em comunhão com o Pai(I Jo 1,3) e com seu Filho morto e ressuscitado, na comunhão no Espírito Santo(I Cor 13,13). O mistério da Trindade é a fonte, o modelo e a meta do mistério da igreja: um povo reunido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, chamado a ser em Cristo como sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano’”( DAp 155; LG 1). A Constituição sobre a Liturgia “Sacrossanctum Concilium” afirma: “foi do lado de Cristo adormecido na cruz que nasceu o sacramento admirável de toda a Igreja” (SC 5).  A categoria “sacramento” é muito apropriada para expressar o ser da Igreja.  Aponta para sua origem e seu conteúdo transcendente – o mistério de Deus – e, ao mesmo tempo afirma a presença comunicante desse mistério aos seres humanos em história. De um lado, a Igreja está imersa no mistério e, por outro, mergulhada no tempo. Ela prolonga assim, na sucessão dos tempos, o mistério da encarnação: “o Verbo armou sua tenda no meio de nós”( Jo1,14). Na Igreja, pois,  concretiza-se a relação Deus-humanidade. O conteúdo do Sacramento-Igreja, seu mistério é o próprio Deus, Uno e Trino, dando-se em comunhão à humanidade. É a própria auto-comunicação de Deus que dá origem à Igreja, preparada no Antigo Testamento – Israel já era chamado Igreja (Qaal) – e plenamente realizada pelas missões do Filho e do Espírito Santo. O Povo de Deus no Antigo Testamento era a Igreja de Deus, instituída na Assembléia do Sinai pela promulgação da lei e pela celebração da aliança selada no sangue dos animais imolados em sacrifício. O Novo Israel tem em Jesus, o Novo Moisés, e nos doze apóstolos, enviados a todas as nações, as colunas do novo Israel. Donde ser agora a comunidade nascida de Jesus o novo Povo de Deus, o povo da Nova Aliança, Igreja de Deus. (LG Cap. II; I Ped 9,10)

A Igreja, Povo de Deus

A primeira recepção do Concílio concentrou-se nessa compreensão da Igreja como Povo de Deus, com especial entusiasmo, por ser nesse capítulo afirmada a igualdade e a dignidade fundamental de todos os membros da Igreja e pelo reconhecimento dos carismas distribuídos a todos generosamente pelo Espírito. Entender a Igreja como Povo de Deus permitiu ainda perceber melhor a dimensão histórica da Igreja, sua condição de peregrina e de participante das comuns aflições, crises e esperanças da humanidade. Avaliando, entretanto, a forma como por muitos foi se traduzindo na teologia e na prática pastoral essa compreensão, o então Cardeal Ratzinger fez a seguinte observação: “Na primeira fase da acolhida do Concílio, junto com o tema da colegialidade, o conceito de Povo de Deus, interpretado apressadamente a partir do uso linguístico geral da palavra povo, no âmbito da teologia da libertação, por influência do marxismo, foi entendido em contraposição às classes dominantes, no sentido de soberania do povo, que agora seria também aplicado à Igreja. Isso, por sua vez, suscitou amplos debates sobre as estruturas, nos quais se interpretou povo, segundo as diversas situações, em estilo ocidental como democratização ou no sentido das democracias populares orientais”(Conferência supracitada). Mas, fora de dúvida, o capítulo II da LG marca definitivamente e eclesiologia do pós-concílio. É, porém, de fundamental importância perguntar-se sobre o que caracteriza o Povo de Deus. A resposta é simples: caracteriza esse Povo sua pertença a Deus, sua comunhão com Deus. O mediador dessa comunhão é Cristo em sua santa humanidade. A Igreja é, portanto, o Povo de Deus reunido em Cristo pelo Espírito, a tal ponto de formar com Cristo uma só coisa, um só corpo. A Igreja é o Povo de Deus que se concretiza como Corpo de Cristo. Assim termina o cap. II da LG: “Assim a Igreja reza e trabalha, ao mesmo tempo, para que a plenitude do mundo todo entre no grêmio do Povo de Deus, do Corpo do Senhor e do Templo do Espírito Santo. E, em Cristo, Cabeça de todos, se dê toda honra e glória ao Criador e Pai de todas as coisas”(LG 17). O capítulo II da LG não deixa de lado, pelo contrário, o capítulo I que trata do “Mistério da Igreja”, que outro não é senão o mistério de Deus Trino, e onde, lapidar, está a citação de São Cipriano: “o povo reunido – plebs adunata – na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo”(Lg 4). A essência substantiva da Igreja é, pois, a koinonia. Esta perspectiva foi pouco a pouco se tornando a perspectiva da eclesiologia pós-conciliar.

A Igreja como Comunhão

Começo essa parte de minha meditação com a firmação de João Paulo II: “Fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão: eis o grande desafio que nos espera no milênio que começa, se quisermos ser fiéis ao desígnio de Deus e corresponder às expectativas mais profundas do mundo” (NMI. 43). Lembro que a terceira conferência do episcopado latino-americano, em Puebla (27/11 a 13/12 de 1979), teve como pano de fundo de suas propostas a Comunhão, entendida como participação no mistério trinitário, e que haveria de se traduzir na prática cristã como participação, buscando sempre a unidade.  Assim: “Depois da proclamação de Cristo que nos revela o Pai e nos dá seu Espírito, chegamos a desco­brir as raízes últimas de nossa comunhão e participação (211). Revela-nos Cristo que a vida divina, é comunhão trinitária. Pai, Filho e Espírito vivem, em perfeita inter-comunhão de amor, o mistério supremo da unidade. Daqui procede todo amor e toda comu­nhão, para a grandeza e dignidade da existência humana”(212). Eco na CNBB dessa Eclesiologia foi o documento 40: Igreja: “Comunhão e Missão” com duas especificações, a saber: a)“na evangelização dos povos; b) no mundo do trabalho, da política e da cultura”. E João Paulo II, falando na conclusão da Assembléia Extraordinária do Sínodo dos Bispos em 1985, em que foi avaliada a recepção do Concílio, ressaltou: “de modo particular neste Sínodo foi examinada a natureza da Igreja, enquanto é mistério e comunhão, isto é, koinonia” (n. 6). Em 1988, na Christifideles laici, exortação pós-sinodal sobre os fieis leigos – o sínodo se deu em 1987 -, João Paulo II retoma o ensinamento do Sínodo de 1985: “ A eclesiologia da comunhão é a idéia central e fundamental nos documentos do Concílio: “A Koinonia-comunhão, fundada na Sagrada Escritura, é tida em grande honra na Igreja antiga e nas Igrejas orientais até aos nossos dias. Por isso, muito se tem feito desde o Concílio Vaticano II para que a Igreja como comunhão seja entendida de maneira mais clara e traduzida de modo mais concreto na vida. Que significa a complexa palavra ‘comunhão’? Trata-se fundamentalmente de comunhão com Deus por Jesus Cristo no Espírito Santo”(n. 19)

Mas, voltando a afirmação de João Paulo II”, na NMI, quero insistir nas duas razões que ele oferece para propor a espiritualidade da comunhão como o caminho para a Igreja no novo milênio. As duas razões no fundo são uma só. O desígnio de Deus, ao criar a humanidade, era “reunir em Cristo todas as coisas, tanto as dos céus como as da terra”( Ef 1,10). Fomos criados para a comunhão e, por isso, trazemos em nossa natureza um dinamismo-anseio que nos impele na direção do outro, em última análise na direção do grande Outro, Deus. Criados à imagem e semelhança de Deus Uno e Trino, somos, a partir de dentro, impelidos a entrar em comunhão com os outros. Conhecendo Jesus Cristo, n’Ele temos desvendado nosso mistério’(GS 22) e nos descobrimos destinados a participar da  comunhão eterna do próprio Deus. Na Comunhão está a vida tão desejada por nós e por nossos povos (tema que perpassa o documento de Aparecida). Por saber disso, e por ser portadora dessa vida, a Igreja quer fazer discípulos missionários de Cristo para que n’Ele nossos povos tenham vida em abundância (Jo 10,10). A vida em abundância pressupõe que todos tenham o mínimo necessário para sobreviver com dignidade, mas a vida plena ou em abundância é a vida eterna (cf. Jo 10.27-23) e consiste nisso: “que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro e aquele tu enviaste , Jesus Cristo”(Jo 17,3) ou ainda: “…porque a vida se manifestou: nós vimos e damos testemunho e vos anunciamos a Vida eterna, que estava com o Pai e apareceu a nós – o que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos para que estejais também em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo”( I Jo 1,2-3). Esta é a dimensão fonte que nos permite entender o que significa Igreja, Povo de Deus. Esta é a Comunhão, fonte de vida, que deve se manifestar  na comunhão visível da Igreja, segundo a oração de Cristo: “que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti; que eles estejam em nós, para que o mundo creia que me enviaste”(Jo 17,21). É este também o significado profundo do mandamento novo: “nisto reconhecerão que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros”(Jo 13,35). A comunhão mística se manifesta na comunhão concreta, histórica, como vem descrita nos Atos dos Apóstolos(cf. At 2,42-47; 4,3234). Ao oferecer os traços fundamentais da espiritualidade de comunhão João Paulo II coloca em primeiro lugar a experiência do Deus Trindade e, a partir desta experiência,  um olhar novo, uma relação nova com os irmãos(cf. NMI 43). A experiência de comunhão impele à missão.

A Igreja em Missão

Assim reflete o Papa João Paulo II, na Exortação apostólica pós-sinodal sobre os fieis leigos: “Ora, a comunhão gera comunhão e reveste essencialmente a forma de comunhão missionária. Jesus, de fato, diz aos Seus discípulos: « Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e vos constituí para irdes e dardes fruto e para que o vosso fruto permaneça » (Jo 15, 16). A comunhão e a missão estão profundamente ligadas entre si, compenetram-se e integram-se mutuamente, ao ponto  da comunhão representar a fonte e, simultaneamente, o fruto da missão: a comunhão é missionária e a missão é para a comunhão”(32). Pode-se perguntar: o que é primeiro? A comunhão ou a missão? A comunhão é fonte, mas nela já está presente o dinamismo missionário, pois a Igreja nasce das divinas missões do Filho e do Espírito Santo. Aqueles que são colhidos pelo Espírito e inseridos em Cristo são, ipso facto, participantes da vida e missão do Filho. Se voltarmos o olhar para dentro do mistério trinitário encontraremos “no-ser-um-para-o-outro” dos três subsistentes uma quase necessidade de transbordamento para fora. Santo Tomás definiu a missão divina como a própria origem eterna com um termo no tempo, ou seja, o ato do Pai de gerar aparece no tempo, de modo que Jesus é o Verbo procedendo do Pai para nós e no meio de nós. E a atuação do Espírito é a presença da divina espiração no tempo da história. As divinas missões são transbordamento.  Os que vivem a comunhão com o Pai e com o Filho, no Espírito, se tornam sinais, sacramento desta comunhão no coração do mundo. São, em primeiríssimo lugar, testemunhas. É ainda João Paulo II que nos ensina: “É o outro vasto campo, em que se torna necessário um decidido empenho programático no âmbito da Igreja universal e das Igrejas particulares: o da comunhão (koinonia), que encarna e manifesta a própria essência do mistério da Igreja. A comunhão é o fruto e a expressão daquele amor que, brotando do coração do Pai eterno, se derrama em nós através do Espírito que Jesus nos dá (cf. Rom 5,5), para fazer de todos nós « um só coração e uma só alma » (Act 4,32). Ao realizar esta comunhão de amor, a Igreja manifesta-se como « sacramento, ou sinal, e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano .” Sobre ser testemunhas gostaria de trazer a palavra de Paulo VI na “Evangelii Nuntiandi”: “E esta Boa Nova há de ser proclamada, antes do mais, pelo testemunho. Suponhamos um cristão ou punhado de cristãos que, no seio da comunidade humana em que vivem, manifestam a sua capacidade de compreensão e de acolhimento, a sua comunhão de vida e de destino com os demais, a sua solidariedade nos esforços de todos para tudo aquilo que é nobre e bom. Assim, eles irradiam, de um modo absolutamente simples e espontâneo, a sua fé em valores que estão para além dos valores correntes, e a sua esperança em qualquer coisa que se não vê e que não se seria capaz sequer de imaginar. Por força deste testemunho sem palavras, estes cristãos fazem aflorar no coração daqueles que os vêem viver, perguntas indeclináveis: Por que é que eles são assim? Por que é que eles vivem daquela maneira? O que é, ou quem é, que os inspira? Por que é que eles estão conosco? Pois bem: um semelhante testemunho constitui já proclamação silenciosa, mas muito valiosa e eficaz da Boa Nova. Nisso há já um gesto inicial de evangelização. Daí as perguntas que talvez sejam as primeiras que se põem muitos não-cristãos, quer se trate de pessoas às quais Cristo nunca tinha sido anunciado, ou de batizados não praticantes, ou de pessoas que vivem em cristandades mas segundo princípios que não são nada cristãos. Quer se trate, enfim, de pessoas em atitudes de procurar, não sem sofrimento, alguma coisa ou Alguém que elas adivinham, sem conseguir dar-lhe o verdadeiro nome. E outras perguntas surgirão, depois, mais profundas e mais de molde a ditar um compromisso, provocadas pelo testemunho aludido, que comporta presença, participação e solidariedade e que é um elemento essencial, geralmente o primeiro de todos, na evangelização. Todos os cristãos são chamados a dar este testemunho e podem ser, sob este aspecto, verdadeiros evangelizadores” (21). Logo adiante Paulo VI vai insistir que sem o anúncio explícito o ato evangelizador fica incompleto, pois é o anúncio que convida à conversão, e conduz aos sacramentos e, à inserção na comunidade concreta. As Diretrizes Gerais da CNBB colocam quatro elementos como exigências intrínsecas da evangelização: testemunho, diálogo, serviço e anúncio. Penso que testemunho sintetiza as quatro, desde que se entenda o anuncio como testemunho pela palavra: “nós vimos e damos testemunho e vos anunciamos a Vida eterna”( I Jo 1,2). O querigma é testemunho proclamado, comunicado pela palavra autorizada de quem vive. No livro dos Atos a missão é assim dada por Jesus: “O Espírito Santo descerá sobre vós e dele recebereis força. Sereis, então, minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra”( At 1,8).

A Urgência da Missão

Sem entrar em análise detalhada do momento histórico que vivemos, caracterizado como uma mudança de época cito uma passagem da “Redemptoris Missio” muito interessante e que merece especial consideração. Encabeça o texto o título: A atividade missionária está ainda no início.  Ei-la: “O nosso tempo, com uma humanidade em constante movimento e empenhada em incansável busca (ricerca), exige um renovado impulso na atividade missionária da Igreja. Os horizontes e as possibilidades da missão alargam-se, e é-nos pedida, a nós cristãos, a coragem apostólica, apoiada sobre a confiança no Espírito. Ele é o protagonista da missão! Na história da humanidade, há numerosas viragens (mutationes, svolte, rviravoltas) que estimulam o dinamismo missionário, e a Igreja, guiada pelo Espírito, sempre respondeu com generosidade e clarividência… A Igreja deve hoje enfrentar outros desafios, lançando-se para novas fronteiras, quer na primeira missão ad gentes, quer na nova evangelização dos povos que já receberam o anúncio de Cristo: a todos os cristãos, às Igrejas particulares e à Igreja universal, pede-se a mesma coragem que moveu os missionários do passado, a mesma disponibilidade para escutar a voz do Espírito”(RM 30). O Papa João Paulo II está a nos dizer que a mudança de época – uma destas reviravoltas – desperta o dinamismo missionário da Igreja e que o vazio de valores que medra em nosso mundo abre espaço para o anúncio do evangelho, porque esse vazio produz corações insatisfeitos. O desmoronamento e o esvaziamento, provocados pela pós-modernidade, dos valores que vertebraram a cristandade possibilitam e pedem de nós um anúncio novo do evangelho, que toque a razão e o coração das pessoas de modo que elas reconstruam sua vida no encontro com Cristo.

 A Quinta Conferência

O Encontro com Cristo e o conseqüente mergulho na vida trinitária, com suas conseqüências históricas para a Igreja e para a construção da sociedade, foi tema recorrente no ensinamento do Papa João Paulo II. Basta percorrer os documentos promulgados durante seu pontificado. Esse foi seu programa assim anunciado na sua primeira encíclica “Redemptor Hominis”: “Entretanto, se as vias a seguir, para as quais o Concílio do nosso século orientou a Igreja, vias que nos indicou na sua primeira Encíclica o saudoso Papa Paulo VI, continuarem a ser exatamente as vias que nós todos devemos seguir, então podemos nesta nova fase interrogar-nos: Como? De que maneira será conveniente prosseguir? O que será necessário fazer, para que este novo advento da Igreja, conjugado com o já iminente fim do segundo Milênio, nos aproxime d’Aquele que a Sagrada Escritura chama « Pai perpétuo », Pater futuri saeculi”?  Em seguida: “É precisamente aqui neste ponto, caríssimos Irmãos, Filhos e Filhas, que se impõe uma resposta fundamental e essencial, a saber: a única orientação do espírito, a única direção da inteligência, da vontade e do coração para nós é esta: na direção de Cristo, Redentor do homem; na direção de Cristo, Redentor do mundo. Para Ele queremos olhar, porque só n’Ele, Filho de Deus, está a salvação, renovando a afirmação de Pedro: « Para quem iremos nós, Senhor? Tu tens as palavras de vida eterna ».” O grande tema Exortação pós-sinodal “Ecclesia in America” foi: “O Encontro com Jesus Cristo vivo, caminho para a conversão, a comunhão e a solidariedade na América.” A Carta Apostólica NMI, 2001, não é outra coisa senão a reafirmação quase como mensagem final de seu pontificado, de tudo o que significou seu empenho de Pastor universal: a contemplação do rosto de Cristo para, partindo dele, em processo permanente de santificação, testemunhar no novo milênio o amor de Deus. A Conferência de Aparecida propõe-nos exatamente esse caminho. Fazer discípulos missionários. O discípulo começa, não a partir de uma idéia, de uma decisão ética, da assimilação de uma doutrina, o discípulo nasce e cresce no encontro e na convivência com a pessoa de Jesus (cf. DAp 243 e 244). Esse encontro é fruto do querigma de tal modo que o querigma deve ser o fio condutor de todo o processo de evangelização. A comunidade nasce do querigma. A experiência de Jesus vivo reúne os discípulos para a alegria da partilha e a comunidade se torna o lugar mais forte do aprofundamento do encontro com Ele. Todo o capítulo VI do documento fala disso. Não devo me estender sobre o assunto, do contrário estaria ocupando o espaço de outros que nessa semana, espero, se debruçarão sobre as consequências pastorais dessa vivência “discipular” de todos os membros da Igreja. Quero, entretanto finalizar minha meditação com algumas afirmações que julgo fundamentais para que o processo evangelizador da Igreja tenha real eficácia: a cultura católica da Cristandade não é capaz de suportar as atuais mudanças culturais; as propostas de felicidade da cultura individualista e consumista são extremamente sedutoras, mas elas mesmas deixam um vazio que tornam as pessoas sensíveis ao testemunho cristão; só um cristianismo forte cimentado em convicções profundas subsistirá no mundo que está chegando: “O cristianismo do futuro, ou será místico ou não será nada”(Rahner); um cristianismo assim se constrói no encontro pessoal com Cristo, em permanente aprofundamento; caracteriza esse encontro a certeza comovida de que o anseio de felicidade e de realização, razão de todas as buscas, só n’Ele encontra resposta (GS 22; DAp 277 e 278).  O resto é lixo (Fl 3,7-8). A partir desse ponto faço meu comentário final.

O discípulo missionário deve deixar tudo para seguir Jesus e assim receber o cêntuplo nesta vida( Mc 10,29-31) e poder dizer com sinceridade: “Conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma graça, e transmitir esse tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor nos confiou ao nos chamar e nos escolher” (DAp 18); e ainda: “A alegria do discípulo  não é um sentimento de bem-estar egoísta, mas uma certeza que brota da fé, que serena o coração e capacita para anunciar a boa nova do amor de Deus. Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber: tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria”(DAp 29). Na medida em que isso for verdade em nossas vidas com certeza encontraremos os caminhos da conversão pastoral para as estruturas e funcionamento de nossas instituições e pastorais. Citando João Paulo II: “Não haja ilusões! Sem esta caminhada espiritual, de pouco servirão os instrumentos exteriores da comunhão. Revelar-se-iam mais como estruturas sem alma, máscaras de comunhão, do que como vias para a sua expressão e crescimento”(n. 43). O mesmo vale para a missão. A conversão pastoral deve estar enraizada na conversão pessoal.

Somente de dentro da experiência acima descrita é possível formar discípulos missionários, uma vez que formar discípulos é missão de discípulos em constante processo de amadurecimento. Não é questão de promover cursos, não é um problema de didática, é um desafio pedagógico-espiritual.  Na NMI o Santo Padre, João Paulo II, fala mais de uma vez de pedagogia, de escola: “Mas é claro também que os percursos da santidade são pessoais e exigem uma verdadeira e própria pedagogia da santidade, capaz de se adaptar ao ritmo dos indivíduos”(31); “Para esta pedagogia da santidade, há necessidade dum cristianismo que se destaque principalmente pela arte da oração”.(n. 32); As nossas comunidades, amados irmãos e irmãs, devem tornar-se autênticas « escolas » de oração”(33); “Por isso, é preciso que a educação para a oração se torne de qualquer modo um ponto qualificativo de toda a programação pastoral”.(34); “é preciso promover uma espiritualidade da comunhão, elevando-a ao nível de princípio educativo em todos os lugares onde se plasma o homem e o cristão, onde se educam os ministros do altar, os consagrados, os agentes pastorais, onde se constroem as famílias e as comunidades”(43). Não haverá passagem de uma pastoral de manutenção para uma pastoral formadora de discípulos missionários se nós, bispos, presbíteros e diáconos não formos muito mais que eficientes administradores de nossas instituições eclesiásticas. Seremos os pedagogos desse caminho, na medida que formos cristóforos e, então, Ele, o divino-humano Mestre, caminhará conosco e se revelará, através de nós, a todos os que, de certa forma, já o buscam, mas precisam de seus sinais para o encontrarem.

Por último, gostaria de lembrar que o papa Leão XIII, por insistência da bem-aventurada Helena Guerra que, no final do sec. XIX, lhe enviou 14 cartas, todas sobre a necessidade de incrementar o amor e a devoção à pessoa do Espírito Santo, não só, escreveu a encíclica “Divinum Illud Munus (1897) e ordenou que se fizesse no mundo todo a novena do Espírito Santo, em preparação para a festa de Pentecostes, como também consagrouo sec. XX ao Espírito Santo. Foi o Papa João XXIII que a declarou bem-aventurada pouco antes da convocação do Concílio por ele desejado como um novo Pentecostes. Ser testemunha de Cristo é obra do Espírito:  “Ele dará testemunho de mim e vós também, dareis testemunho…”(cf.  Jo 15,26-27). Paulo VI na “Evangelii Nuntiandi” nos ensinava:. “Nunca será possível haver evangelização sem a ação do Espírito Santo. Sobre Jesus de Nazaré, esse Espírito desceu no momento do batismo, ao mesmo tempo que a voz do Pai -“Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”-, manifestava de maneira sensível a eleição e a missão do mesmo Jesus”(EN 75). O documento de Aparecida afirma em sua conclusão: “Necessitamos de um Novo Pentecostes (548)”. Façamos de sua invocação sincera, comovida, nossa prece diária. Vem, Espírito Santo, vem!

(Conferência proferida na Semana de Teologia do Instituto de Teologia da Arquidiocese de Juiz de Fora em 2010)

Por Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues, Arcebispo de Sorocaba – SP

Adicionar Comentário

Clique aqui para comentar

Palavra do Presidente

NOVO ESTATUTO DA CNBB

Facebook

Assine nossa newsletter

Conheça nossos parceiros.