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Cidadania na cidade

O que é ser cidadão? O que é ter cidadania? Segundo o dicionário: “O cidadão é o indivíduo que, como membro de um Estado, usufrui de direitos civis e políticos, por estes garantidos, e desempenha os deveres que, nesta condição, lhe são atribuídos”. Já cidadania é um fenômeno radicalmente antropológico, isto é, próprio do homem. Isto é, a cidadania brota da estrutura da pessoa em si, a lei pode até regulamentar o exercício da cidadania, mas não a outorga ao ser humano. Por isto qualquer esforço por cancelar a cidadania é uma forma de atrofiar a humanidade.

Para ser cidadão não basta ter certidão de nascimento, não basta votar, pagar tributos, obedecer a leis, estes dados são essenciais, virtuosos, mas não suficientes para o melhor progresso do conjunto da cidadania porque podem visar somente os interesses particulares. Um bom cidadão pode ir além disso, ser alguém que sem visar lucros, interesses pessoais ou profissionais, em defesa do povo, faz o bem, o bem comum.

Cidadania pode ser entendida como um compromisso histórico. Compromisso este de participação nas decisões e ações da sociedade. Cidadania é participação pluridimensional. É, ao mesmo tempo, participação política, econômica, social, psíquica, cultural e ética. Ser um arauto da cidadania é participar da vida social com sua solidariedade, suas relações e com a busca da conscientização de si e dos outros. O cidadão precisa ter consciência da realidade em que vive, trabalha, sofre e se inter-relaciona. Já a inconsciência favorece a manipulação e conduz ao adesismo que reforça o sistema desumano que empulha o país e crucifica o povo.

O cidadão age também lutando contra as objeções de consciência de um Estado que muitas vezes não ouve o povo que lhe confere o poder. Para os cristãos a própria fé em Jesus encaminha para isto. Já na Carta a Diogneto, um dos mais antigos documentos do Cristianismo (120 d.C.) se descrevia o cristão como cidadão: “Assim como a alma está no corpo, assim os cristãos estão no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as cidades do mundo.

O cristão entendido como membro de um povo é cidadão, está inserido em um terreno concreto, em uma história concreta, manifesta suas convicções humanas, políticas sociais e religiosas na esfera em que vive e não deve ser calado somente pelo fato de possuir uma religião. Nenhum cidadão independentemente da profissão religiosa deve ser desrespeitado neste mérito ou em outro.

Sabe-se que a cidadania requer participação na liberdade. A verdadeira muralha da cidade é a liberdade. Cidadania é participação livre e solidária. Ninguém é cidadão sozinho ou apenas para si. É cidadão com os outros. Todo cidadão é con-cidadão. E sem con-cidadania, prevalece o individualismo narcisista. Por isto também os cristãos não vivem isolados da sociedade, dialogam com todas instâncias da vida social, sejam elas governamentais ou não, favoráveis aos seus discursos e pautas ou não.

Cidadania é participação bifacial. Exige direitos e assume deveres. Só existe cidadania quando se garantem os direitos de todos e se cobram os deveres de todos. A cidadania elimina a assimetria social, em que os poderosos só têm direitos e os fracos só têm obrigações. Isto precisa ser trabalhado por cada um de nós, mas também na cidade inteira. Para o cristão a cidadania plena só é possível quando Deus habita a cidade (Sl 47,9) e seus mandamentos são observados.

Pessoalmente agradeço ao Grande ABC que através de seus cidadãos tem me acolhido e a tantos migrantes e imigrantes de modo admirável. Agradeço às Câmaras de Mauá e de Santo André, como representantes da população, que me presentearam a cidadania jurídica. As recebi não como reconhecimento pessoal exclusivamente, mas em nome da Igreja. Esta Igreja com seus membros sempre foi uma grande agente de cidadania na história de cada município e do ABC como um todo, desde as fundações. Deus ajude que cada um de nós possa a cada dia construir a cidadania que tanto necessitamos, pela razoabilidade, para o bem da pátria, o bem comum.

Por Dom Pedro Carlos Cipollini, Bispo Diocesano de Santo André

 

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