Ao longo do tempo, o carnaval vem sofrendo muitas transformações. De uma festa que marcava o início do período quaresmal e reunia pessoas e famílias para brincar e cantar marchinhas, o carnaval se tornou um evento de enormes proporções. O carnaval de hoje recebe investimentos públicos e privados, gera recursos com o turismo e atrai foliões para lugares que oferecem possibilidades e satisfação de desejos e fantasias. Na sociedade de uma pretensa liberdade e suposta diversidade, tudo é permitido, nada é proibido ou contestado, a não ser que a outra pessoa diga “não”. O único limite é a vontade de cada um, o que é legalmente correto, aliás. No entanto, paira a seguinte dúvida: e a questão moral, como fica?

O carnaval parece ditar o início de muitas atividades, é assim que pensam alguns. Mas é preciso reconhecer que o mundo não gira em torno do nosso carnaval. Outra questão é a quantia volumosa de investimentos para produzir quatro dias de ilusão. Qual o resultado concreto disso? Uma experiência coletiva fugaz do mundo e de experiências de prazeres proibidos? A Quarta-feira de Cinzas chama todos de volta à realidade, alguns com dívidas acumuladas pelos excessos cometidos e pela ostentação. Será que tudo valeu a pena mesmo? Alguns já esperam pelo próximo ano e já começam a planejar. Na política do “pão e circo”, o circo foi montado e agora é tempo de desmontar, ou pelo menos mudar o seu formato.

Durante o carnaval, muitos jovens e adultos fazem uma escolha diferente: decidem viver o carnaval em retiro e oração, com música e reflexões. Não raras vezes, a opção dessas pessoas se torna objeto de chacota e piadinhas depreciativas. Na realidade, parece que as extravagâncias do carnaval são a regra e que o recolhimento e a oração são as coisas que escandalizam. Aqui não se trata de afirmar que uns são mais santos que outros, mas de ressaltar as contradições presentes nessas duas formas de ver e viver a vida.

A Quaresma é um tempo litúrgico que nos coloca diante do convite à conversão: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. A conversão é uma mudança de direção que exige uma revisão de vida e de atitudes. Não é suficiente saber o que está errado; é preciso corrigir o erro e as ferramentas para isso são o jejum, a esmola e a oração. O uso desses instrumentos não é para o exibicionismo externo, mas para a transformação interior; esse é o caminho proposto pelo Senhor. Modéstia, disciplina, ascese são atitudes complementares nesse processo de conversão.

Num mundo marcado pelo espetáculo e ostentação das conquistas, um caminho interior e silencioso pode parecer absurdamente anacrônico e fora de propósito. Mas é a proposta cristã, para quem tem como objetivo alcançar a vida eterna, vivendo o combate no meio das contradições deste mundo. O que faremos para buscar a conversão? Quais serão os propósitos que vamos buscar? Que penitências, jejuns ou mortificações escolhemos? Essas são decisões particulares, mas que devem refletir concretamente em nossa vida pessoal e comunitária. Caminhemos rumo à Páscoa do Senhor.

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba