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Cardeais do Jubileu da Misericórdia

No domingo passado, 9 de outubro, o Papa Francisco anunciou 17 novos cardeais, que receberão as insígnias cardinalícias no Consistório, também já anunciado, de 19 e 20 de novembro próximo. Os membros do Colégio Cardinalício têm a missão de ajudar o Papa no exercício do seu ministério em favor de toda a Igreja; por isso, muitos deles são membros e conselheiros de organismos da Cúria Romana, conjunto de serviços ao redor do Papa, na Santa Sé.
De tempos em tempos, o Pontífice também convoca todos os cardeais para ouvi-los a respeito de determinadas questões ou de decisões que está para tomar. É apropriado dizer que os cardeais são colaboradores e conselheiros do Papa. Outra missão do Colégio Cardinalício consiste na eleição de um novo papa, quando a Sé de Pedro se torna vacante.
Dentre os novos, 13 têm menos de 80 anos de idade e contarão entre os cardeais eleitores; outros quatro já têm mais de 80 anos de idade e já não seriam mais eleitores num eventual conclave. Entre os cardeais anunciados, está Dom Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília e atual presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Assim, serão cinco os cardeais brasileiros que somam entre os “eleitores”. Outros seis brasileiros já ultrapassaram os 80 anos.
Seguindo a lógica de dar um rosto mais universal ao Colégio Cardinalício, Francisco elegeu cardeais para pequenos países, onde nunca houve cardeal, nem há muitos católicos, como a República Centro-Africana, Ilhas Maurício, Papua-Nova Guiné e a Albânia. O Colégio Cardinalício também espelha melhor a índole missionária da Igreja. Além disso, essas novas nomeações estão na lógica da valorização das “periferias” da Igreja e do mundo.
Quatro nomeações podem ser interpretadas como “frutos” do Jubileu da Misericórdia: o novo Cardeal Mário Zenari, núncio apostólico na “amada e martirizada Síria”, que continuará a exercer sua missão de Representante Pontifício naquele país, colaborando para aliviar o sofrimento do povo sírio, especialmente dos cristãos. Vai na mesma direção a nomeação cardinalícia do arcebispo de Dhaka, capital do Bangladesh, um dos países mais populosos e pobres do mundo, onde há apenas uma minoria cristã. A nomeação de Dom Sebastian Koto Khoarai, bispo emérito do Lesotho, pequeno país do sul da África, com pouquíssimos católicos, sinaliza para a valorização e o fortalecimento da Igreja missionária – “Igreja em saída”.
Por sua vez, a chamou muito a atenção a escolha do sacerdote idoso Ernest Simoni, da arquidiocese de Scutari, na Albânia. Ele sobreviveu à perseguição comunista da Albânia, o primeiro país que se proclamou ateu oficialmente; o sacerdote ficou preso e foi condenado a trabalhos forçados por 27 anos, de 1963 a 1990, por ser sacerdote, continuar a celebrar e a exercer o sacerdócio, sendo, por isso, declarado “inimigo do povo”. O Papa Francisco o encontrou na sua visita à Albânia, em 2014 e, com emoção, lhe beijou as mãos. O novo cardeal é uma testemunha viva da firmeza na fé em meio a perseguições e motivo de conforto para muitos, que ainda seguem sendo perseguidos por causa da fé.
Era esperado que o Papa Francisco fizesse novos cardeais na conclusão do Ano Santo extraordinário da Misericórdia, que será encerrado, justamente, no domingo de Cristo Rei, 20 de novembro. Não se trata apenas de completar o número de cardeais eleitores do Colégio Cardinalício, que devem ser no máximo 120.
Ao se reunir com o Colégio no Consistório de 19 e 20 de novembro, e ao integrar nele novos membros, justamente na conclusão do Jubileu extraordinário da Misericórdia, o Papa Francisco está sinalizando mais uma vez para a importância do anúncio da misericórdia, do testemunho e do serviço da misericórdia para toda a Igreja. Nas palavras de Francisco, ao anunciar os novos cardeais, eles “edificam o povo de Deus anunciando o amor misericordioso de Deus no cuidado cotidiano do rebanho do Senhor e na proclamação da fé”.

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo metropolitano de São Paulo
Publicado no Jornal O SÃO PAULO edição 3123 – De 12  a 18 de outubro de 2016

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