Artigos

Ateia, judia e santa

Santa Edith Stein morreu incinerada nos fornos do campo de concentração nazista de Auschwitz por volta do dia 9 de agosto de 1942. Uma das suas célebres frases é: “Não sei para onde minha vida está indo, mas sei que Deus a está conduzindo”. Edith era de família judia alemã e, na adolescência, decidiu ser ateia. Dedicou-se aos estudos e teve brilhante carreira acadêmica devido à sua brilhante inteligência unida à disciplina pessoal.

Destacou-se, sobretudo, na área da filosofia e foi assistente do filósofo criador da Fenomenologia, Edmund Husserl, em Freiburg. Edith deu aulas e palestras em vários países da Europa. Na maturidade, a misteriosa graça de Deus começou a agir naquela alma tão nobre e rica, apesar de ateia. Ela escreverá mais tarde que, durante o seu ateísmo, a sua busca da verdade era uma forma de oração.

Entre seus poucos amigos mais próximos estava um casal de protestantes, que também eram professores. Deus usou o testemunho de fé daquele casal para tocar a alma da ateia Edith que decidiu, então, procurar mais profundamente a verdade. Certa noite, durante as férias passadas na casa do casal amigo, pegou aleatoriamente um livro da estante e começou a lê-lo por curiosidade, perdeu o sono e não conseguiu parar de ler e, de madrugada, ao concluir as 360 páginas, fechou o livro e exclamou: “Aqui está a verdade!”. O livro era a autobiografia da grande mística fundadora das Carmelitas Descalças, Santa Teresa de Ávila, intitulado “Livro da Vida”.

Edith Stein abriu-se à graça através do estudo pessoal da Sagrada Escritura, do catecismo, da oração e contou com a ajuda de um diretor espiritual monge beneditino. Com 30 anos de idade, ela apresentou-se sozinha na sacristia após participar de uma missa e, de supetão, disse ao padre: Desejo ser batizada. O padre respondeu friamente que não se batizava assim de qualquer jeito, que seria necessária uma adequada preparação etc. Edith simplesmente propôs: “O senhor me interrogue”. O padre fez algumas perguntas e ficou boquiaberto diante da convicção daquela moça que sabia tudo de religião.

Edith ficava horas em silêncio diante do sacrário. Desejava ser religiosa, mas obedeceu ao diretor espiritual e dedicou-se ao magistério refletindo particularmente sobre o lugar da mulher na sociedade.

Com a ascensão do nazismo, todas as pessoas de origem judaica ficaram impedidas de exercer alguma profissão pública na Alemanha. Edith Stein decidiu então consagrar-se a Deus na vida religiosa e foi aceita no mosteiro das Carmelitas Descalças de Colônia. Edith tinha 40 anos e, como era costume na época, recebeu o nome de Irmã Teresa Benedita da Cruz. O início da vida monástica não foi fácil para aquela intelectual madura que, agora noviça, deveria dedicar-se humildemente a limpar os corredores do claustro, cozinhar e fazer os demais afazeres domésticos tão estranhos para ela. As monjas, exceto a Madre Priora, não sabiam que aquela noviça adulta fora uma intelectual brilhante.

Alguns anos mais tarde os superiores vão permitir e incentivar que Irmã Teresa Benedita volte a escrever e a colocar os seus dons intelectuais, agora unidos aos dons espirituais, a serviço da evangelização. Por represália aos bispos e pastores protestantes que escreveram um manifesto contra o nazismo, muitos religiosos de origem judaica foram sumariamente colocados em um trem e levados para os campos de concentração. Edith Stein ao ser levada pelos soldados nazistas, do Mosteiro Carmelita para o trem que a conduziria ao martírio, disse suas últimas palavras conhecidas: “Vamos, vou morrer pelo meu povo…”

Por Dom Rubens Sevilha, OCD, bispo de Bauru

 

Adicionar Comentário

Clique aqui para comentar

Palavra do Presidente

NOVO ESTATUTO DA CNBB

Facebook

Assine nossa newsletter

Conheça nossos parceiros.