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O livro de Rute (Rt 1,1.3-6.14-16.22) começa com a descrição da fome que se abateu sobre o país e o drama da viuvez que atinge a matriarca Noemi e as suas duas cunhadas, Orfa e Rute.

Noemi fica sem marido e sem os dois filhos. Com ela restam somente as duas cunhadas viúvas. Uma vez que Noemi não tem a esperança de se casar de novo nem de ter outros filhos, ela resolve não impor às noras a sua mesma sorte. Por isso, as desobriga de estar com ela. Nesse sentido, é tocante a resposta de Rute à sua sogra: “para onde fores irei contigo, onde pousares, lá pousarei eu também. Teu povo será o meu povo, e o teu Deus será o meu Deus”. Suas palavras são um juramento de lealdade e de solidariedade da parte de uma estrangeira, disposta a seguir e a assumir a fé de Israel com todas as suas consequências. Respondendo assim Rute se dispõe a beber o cálice da solidão de Noemi até o fim.

As migrações, a fome e a carestia são fenômenos comuns na história da Bíblia e da humanidade. O que não é comum é a beleza e a ternura dessa jovem estrangeira que decide entrar no povo da Aliança para seguir a sua sogra viúva e condenada à solidão. A moabita Rute se integrará, depois, a uma família de Belém e da sua descendência nascerá, a seu tempo, Davi, o rei de Israel, do qual virá o futuro Messias Salvador.

A leitura deste relato nos revela que um ato de solidariedade e fidelidade terá, tempos depois, um fruto tão precioso quanto inesperado. Jesus Cristo, descendente de Davi, terá, na sua origem, a decisão da jovem moabita: “para onde fores irei contigo, onde pousares, lá pousarei eu também. Teu povo será o meu povo, e o teu Deus será o meu Deus”.

Este relato é muito significativo para nossos tempos marcados por migrações forçadas, por uma crescente xenofobia e intolerância religiosa. Nosso salvador traz em sua história pessoal, em sua carne, todos esses dramas que foram superados graças à fidelidade e generosidade de uma pagã estrangeira chamada Rute.

A história de Rute ilumina o significado da amizade como princípio gerador da vida em sociedade e estrutura basilar da organização sociopolítica.

Os filósofos contratualistas defendem que o homem e o Estado fazem uma espécie de acordo – um contrato – a fim de garantir a sobrevivência. Segundo eles, o que está na base da relação Estado – cidadão é o medo: o homem é lobo do homem (Thomas Hobbes, 1588-1689), e o binômio amigo-inimigo é determinante para a política (Carl Schmitt, 1888-1985).

Em oposição a essa convicção, a Bíblia relata a história de Rute que resgatou a sua sogra, Noemi, da solidão e do esquecimento. A amizade é sempre pessoal, mas supera o círculo estreito dos indivíduos e do seu tempo. É concreta e pessoal e, ao mesmo tempo, social e política, pois estende sua força benéfica e restauradora para toda uma descendência, que no caso da história bíblica, tomará corpo em Davi e, na plenitude do tempo, no “Filho de Davi”. Uma amizade verdadeira nunca se limita ao círculo limitado dos amigos; ao contrário, abre as pessoas a horizontes mais vastos da sociedade e das gerações sucessivas.

Por fim, “o amor social se traduz em atos de caridade que criam instituições mais sadias e estruturas mais solidárias. Estrutura a sociedade de modo que o próximo não venha a se encontrar na miséria. A política, nesse sentido, é o mais alto grau de caridade. Dar de comer a um desempregado é expressão de amor, mas assegurar o direito de trabalho a muitos pela ação política é expressão intensa de amor, porque os emancipa e os dignifica” (Texto Base CF 2024, n. 21).