Com a palavra o Presidente

A vocação de todos

A primeira e essencial vocação de todas as pessoas é o chamado à vida e para alcançar a salvação. A compreensão cristã sobre a vida nos leva a afirmar que ninguém nasceu, sem que isso fosse também do conhecimento de Deus. Deus já nos conhecia até mesmo antes que fôssemos formados no seio da mãe (cf. Sl 139, 15-16).

Se Deus chama à existência uma pessoa, não é para a frustração dessa mesma pessoa e a perda de sua existência no nada; mas é para que ela alcance a plenitude da vida, o que significa, na linguagem bíblica e cristã, a “salvação eterna”. O homem não é capaz de dar a si mesmo a salvação: em última análise, recebe-a de Deus quando a busca e acolhe de coração sedento e aberto.

Santo Agostinho, recordado no dia 28 de agosto, resume essa busca, a incapacidade do homem de salvar a si mesmo e a sua realização plena em Deus no seu célebre pensamento: “Tu nos fizeste, Senhor, para ti e nosso coração anda inquieto até que não repousa novamente em ti”. O homem tenta dar a si mesmo a satisfação plena de sua existência; é compreensível que o faça e não poderia deixar de fazê-lo, sem frustrar o sentido de sua existência.

No entanto, cedo ou tarde, percebe que é incapaz de resolver essa questão existencial. As atitudes, então, podem ser várias: resignar-se a uma vida sem sentido; deixar-se levar pelas sensações de cada momento, julgando ser essa a melhor forma de “aproveitar o aproveitável” de uma existência sem sentido; abafar a voz interior e afogar o grito da alma numa desenfreada busca dos prazeres da vida; rebelar-se e esbravejar contra Deus e contra todos aqueles que poderiam ter culpa pelo seu estado de infelicidade.

Santo Agostinho também passou por isso: “Ó eterna verdade e verdadeira caridade e cara eternidade! Tu, meu Deus, por ti suspiro dia e noite! Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu, fora. Eu te procurava e lançava-me, nada belo, ante a beleza que tu criaste. Estavas comigo e eu, não contigo. Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam, se não existissem em ti. Chamaste, clamaste, rompeste a minha surdez; brilhaste, resplandeceste e afugentaste a minha cegueira. Exalaste perfume e eu respirei. Provei-te e tenho mais fome e sede. Tocaste-me e ardi de tua paz”. (Confissões de Santo Agostinho).

O chamado de Deus só pode ser percebido quando se está atento. Muitas coisas nos distraem e desviam nossa atenção, não deixando perceber o chamado de Deus e a silenciosa e forte atração que ele exerce sobre a existência humana. Desde Adão e Eva, a grande tentação do homem foi sempre a de dar ouvidos e de seguir a voz de “alguém outro”, que se propõe no lugar de Deus em nossa vida. São as idolatrias, que existem hoje como no passado. Já nos tempos bíblicos soava a advertência: “Hoje, não fecheis os vossos corações, mas ouvi a voz do Senhor” (Cf. Sl 95,7).

O papa Bento 16, na encíclica sobre a Esperança (Spe salvi), refere-se a um dos dramas mais sérios do nosso tempo, que é a falta de esperança: o homem ainda espera algo mais da existência, que vá além do que ele se pode dar aqui na terra? Muitos não esperam nada de Deus, nem mesmo a “salvação eterna”. Por isso mesmo, uma existência sem esperança acaba não tendo um motivo alto para viver, lutar e aprimorar a vida e a convivência.

O homem é chamado a se lançar para além dos próprios limites. O papa Francisco exortou os jovens em várias ocasiões, durante a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, a não perderem a esperança e a não deixarem que lhes fosse roubada a esperança. O homem só pode ter esperança verdadeira quando se abre para Deus. Então, sim, será capaz de olhar para além dos próprios limites.

Publicado em O SÃO PAULO, edição 2967 de 27 de agosto de 2013

Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo e Presidente do Regional Sul 1 da CNBB

@DomOdiloSchere

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