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Artigo: A violência

A Igreja Católica vive o tempo da quaresma e da Campanha da Fraternidade. Quaresma é um tempo de penitência e de conversão. É comum associar a penitência a práticas exteriores que custam sacrifícios e renúncias. Essa concepção, porém, é incompleta se as ações exteriores não estiverem relacionadas a uma atitude interior. Em outras palavras, a penitência exterior tem sua motivação e origem na penitência interior, e esta é expressada visível e concretamente nas práticas exteriores. Jejuns, esmolas, orações, sacrifícios e renúncias voluntárias brotam da penitência interior, e é esta atitude espiritual que é se exprime nas mortificações praticadas. Tanto a disposição espiritual quanto as práticas visíveis têm seu lugar e importância na medida que estão unidas e relacionadas. Assim como uma prática meramente exterior pode conduzir a pessoa à superstição e à hipocrisia, uma atitude unilateralmente interior, que não se exprime visivelmente, faz a gente duvidar da sua própria existência.

A vida cristã é marcada por um combate espiritual sem tréguas contra o pecado e pela vitória, com a ajuda da graça, sobre ele. Nisso consiste a penitência interior, que se torna visível e concreta nas práticas penitenciais, de modo especial na vivência da fraternidade.

Neste ano de 2018, a Campanha da Fraternidade tem como tema “Fraternidade e Superação da Violência”. Vivemos a penitência quaresmal lutando contra a violência uma vez que ela é um mal e um pecado inaceitável. Ela é uma mentira que se opõe à verdade da nossa fé e à verdade da humanidade.

Infelizmente assistimos a um aumento da violência nas relações pessoais e na vida social. Ainda mais preocupante, são as soluções equivocadas dadas à violência. Por medo, por não acreditar mais nas instituições, por cansaço ou por convicções falsas, muitos começam a acreditar que a própria violência seja um muro de contenção para a criminalidade. A violência, porém, nunca constitui uma resposta justa nem solução para os problemas, pois ela acaba por destruir o que ambiciona defender: a dignidade, a vida, a liberdade dos seres humanos.

Para superar a violência é preciso que a dignidade humana seja respeitada na sua verdade e integralidade. É preciso também educar para a paz.

“Para edificar a paz, é preciso eliminar as causas das discórdias entre os homens, que são as que alimentam as guerras, sobretudo as injustiças. Muitas delas provêm de excessivas desigualdades econômicas e do atraso em lhes dar remédios necessários. Outras, porém, nascem do espírito de dominação e do desprezo das pessoas; e, se buscamos causas mais profunda, nascem da inveja, da desconfiança e da soberba humanas, bem como de outras paixões egoístas. Como o homem não pode suportar tantas desordens, delas provém que, mesmo sem haver guerra, o mundo está continuamente envenenado com as contendas e violências entre os homens” (GS 83).

“Para associar os homens entre si, não basta a identidade da sua natureza; é necessário ensinar-lhe a falar a mesma linguagem, isto é, da compreensão; a usufruir uma cultura comum; e a compartilhar os mesmos sentimentos. De outro modo, o homem preferirá encontrar-se com seu cão, a encontrar-se com um homem estranho” (Sto. Agostinho).

Por Dom Julio Endi Akamine, arcebispo de Sorocaba e Secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), do Regional Sul 1

 

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