Com a palavra o Presidente

A paz esteja convosco!

Quando Jesus ressuscitado aparece aos apóstolos, saúda-os com estas palavras: “a paz esteja convosco!” (Lc 24,36; Jo 20, 19.26). Poderia ser apenas uma saudação normal, que também nós usamos hoje com frequência: shalom! Paz, irmão! Mas não se trata disso.

Pensemos na situação dos apóstolos e demais discípulos: com medo de também serem presos, porque identificados como “o grupo de Jesus”; as autoridades poderiam querer exterminar esse grupo, junto com seu líder, já pregado na cruz… Estavam também desconcertados e decepcionados, pois haviam posto toda sua confiança em Jesus e, ver que tudo acabou como acabou… Com a morte de Jesus na cruz, todo o sonho bonito que haviam alimentado foi por terra, de maneira trágica… Lembremo-nos das palavras dos dois discípulos de Emaús: “nós esperávamos… mas…” (cf Lc 24,21).

E eles, diante de Jesus que lhes aparecia e falava, também tinham lá seus motivos para estarem perturbados e sem paz: como crer logo naquilo que estavam vendo diante de si? Um fantasma? Uma ilusão? Um morto que volta a lhes falar? Além disso, todos eles, à exceção de João, tinham escapado, abandonando Jesus durante os momentos mais trágicos e dolorosos no caminho do Calvário e junto da cruz. Talvez temessem cobranças e repreensões de Jesus… No entanto, as palavras de Jesus são de paz.

É verdade que São Marcos retrata uma repreensão de Jesus aos seus apóstolos: mas não porque o abandonaram e fugiram durante sua paixão: ele os censura “pela falta de fé e pela dureza de coração, porque não tinham acreditado naqueles que o tinham visto ressuscitado” (cf Mc 16,14). Marcos relata duas aparições de Jesus a discípulos, aos quais os apóstolos não deram crédito (cf Mc 16, 9-13).

Se Jesus ressuscitado oferece a paz aos seus amigos isso tem um significado novo: devem saber que ele mesmo está novamente com eles; está vivo, não é uma ilusão, é ele mesmo! Fala com eles e suas palavras tranquilizam e fazem com que o reconheçam: eles, talvez, ainda esperavam ver Jesus todo chagado e sofredor, pregado na cruz e aniquilado pelo sofrimento… Mas diante deles estava o Cristo transfigurado pela glória divina, vivo e sereno. Isso causou impacto, do mesmo jeito que o encontro com a glória de Deus: a primeira reação é o susto, medo, o pavor. Jesus tranqüiliza: “sou eu, não precisam ter medo!” (cf Lc 24, 36-39).

Entre a paixão e a ressurreição aconteceu uma mudança radical. Aquele que foi “entregue nas mãos dos homens”, julgado, torturado e levado à morte pela trama das maldades humanas, agora não está tomando as contas com seus juízes e algozes… Tinha tudo para fazê-lo, mesmo porque continuavam a resistir ao anúncio da ressurreição e ao triunfo do justo inocente, pregado na cruz, mas, pelo poder de Deus, “levantado do pó da morte”, mostrado vivo e triunfante sobre a maldade humana e sobre a própria morte.

Jesus Cristo ressuscitou para manifestar a glória e o poder de Deus: não um poder de vingança e de condenação. Deus não se põe a brigar com as mesquinharias humanas, mas é soberano no amor, na misericórdia e no perdão. Não foi isso mesmo que Jesus fez, durante sua vida na terra, até o fim? “Pai, perdoai-lhes, não sabem o que fazem”, suplicou ele, enquanto era pregado na cruz (cf Lc 23,34). E, junto com o dom da paz, deu aos apóstolos o perdão e o poder de também perdoar os pecados aos outros: “recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados” (cf Jo 20, 22-23).

A paz de Jesus ressuscitado aos apóstolos é o fruto do perdão pleno, da verdade que não engana e da certeza de que ele está de novo com os seus e os acompanha nas jornadas missionárias, às quais os envia. Ele os faz suas testemunhas, com plena certeza e vigor. Não deve persistir nenhuma dúvida em seus corações. Só assim eles irão anunciar e testemunhar o Evangelho com vigor.

Essa mesma paz o Senhor ressuscitado continua dando à sua Igreja e a toda humanidade, que se abre ao anúncio do Evangelho. “Disto nós somos testemunhas” (cf At 2,32).

Artigo publicado no Jornal O SÃO PAULO – Edição 3046 – 8  a 14 de abril de 2015

Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo e Presidente do Regional Sul 1 da CNBB

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