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A missão vista por quem chega

vivendoemmissão_montagem_reduzidaNesta seção Vivendo em Missão, temos a partilha missionária do padre Antônio Luis Fernandes, direto de São Gabriel da Cachoeira (AM).

São Gabriel da Cachoeira é um mu­nicípio do noroeste do Amazonas, às margens do Rio Negro, um dos mais caudalosos do mundo. É uma cidade com 25 mil habitantes localizada na parte mais preservada da região. A eco­nomia está centrada na agricultura de subsistência e em roçados. Mas quase tudo o que se consome vem de Manaus, e isso acaba gerando inconvenientes, como a elevação do preço dos produtos devido aos gastos com transporte. Por causa do tempo que se leva para esses produtos chegarem à cidade, também nem sempre encontramos produtos frescos e saudáveis, o que gera um maior consumo por produtos indus­trializados. O armazenamento em casa também é precário, pois, se na cidade há luz elétrica, nas comunidades ribei­rinhas não há a mesma facilidade. O gerador é ligado por um curto período durante o dia, devido ao preço exorbi­tante do óleo diesel.

A cidade é banhada pelo Rio Negro, que corre na direção de uma montanha chamada de Bela Adormecida. Como o próprio nome sugere, ela lembra o contorno de uma mulher deitada em seu leito. O calor é constante. Outro dado a comentar é que a “cachoeira” anexada ao nome de São Gabriel não é aquele tipo que nós, do sul, pensamos. Aqui cachoeira são as corredeiras do rio que se formam devido à correnteza forte. São Gabriel da Cachoeira é forma­da por uma população eminentemente indígena. Aqui convivem e coabitam 23 etnias indígenas. Elas não só são dife­rentes nos traços físicos e no perfil dos rostos, mas também falam 18 línguas distintas.

Nas comunidades ribeirinhas o que se constata é uma grande alegria com nossa chegada. Elas gostam de nos receber, se oferecem para as pequenas e grandes tarefas e fazem do encontro uma ocasião para retomarem algumas tradições, entre elas, a da merenda co­letiva na maloca central. Com relação à comida, aliás, existe uma resistência no consumo de verduras. Já me disseram numa aldeia que verdura é comida de capivara. Mas o povo amazônico come em todos os momentos. Aqui eles cha­mam de merenda e já me informaram que, para um evento ser bem-sucedido, é só avisar que no seu final haverá merenda. Aqui se aloja uma questão pertinente: é engano pensar que o povo amazônico tem acesso à alimentação farta por estar na floresta. O rio não é tão generoso como se pensa, e a pesca em muitos lugares está restrita a um grupo que controla o acesso ao pescado. Aqui, merendar nos encontros é uma forma de se dividir o alimento. Um segundo elemento é a consciência do amazônida de comer agora o que se tem. Em mui­tas situações, as pessoas se alimentam, pois não têm certeza de quando terão novamente o que comer. Dentro desse emaranhado de questões, destaca-se a cordialidade das pessoas. Fui bem tra­tado e acolhido pelas pessoas da Igreja e pelos demais.

 Itinerância – Aqui no Rio Negro, optamos por dar o nome de itinerância às visitas que acontecem pelo menos quatro vezes por ano e não comportam o atendimento a todos os sacramentos de forma indiscriminada. Nelas, o sacerdote tem a função de animar e orientar as comunidades no segui­mento de Jesus, e, a partir daquilo que é próprio de cada lugar, ajudá-los a encontrar forças para responder à sua fé. As distâncias, de fato, são enormes e existe todo tipo de dificuldade: rio muito agitado, pedras, excesso de cachoeiras, quebra do motor, falta de combustível e de alimentação. Tudo gera receio em quem vai pela primeira vez. Em minha primeira itinerância, visitamos mais de dez comunidades, e o resultado foi positivo. O que mais me chamou a atenção foi a generosidade em acolher, o modelo comunitário das refeições após a celebração onde cada um trazia o que possuía em casa, o número de pessoas que se confessam antes da missa, o número de jovens nas comunidades e a incidência alta de alcoolismo entre a população.

Nessa realidade, a Igreja tem um papel crucial de organização e de fo­mentação das experiências humanas e comunitárias. A Igreja tem seu papel reconhecido como o de formadora de uma identidade cultural: é ela quem ainda incentiva o uso da língua, das tradições e do imaginário indígena. Aqui é fundamental o respeito por essa identidade, e tanto bispo, como padres e religiosas são permanentemente instados a alimentar a vida emocional dessas populações. Nesse sentido, o que percebo é uma Igreja em constante mudança na tentativa de atender aos desafios e necessidades que a realidade impõe àqueles que se dispõem à missão evangelizadora.

 Padre Antônio Luis Fernandes é sacerdote da Diocese de Limeira e  integrante do Projeto Missionário na Amazônia.

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