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Superar a privatização da fé

Somos mais de sete bilhões de pessoas no mundo. Dois terços residem nas cidades, sobretudo em grandes centros urbanos. Internet/Dom Total

Somos mais de sete bilhões de pessoas no mundo. Dois terços residem nas cidades, sobretudo em grandes centros urbanos. No Brasil, a população urbana que, em 1940, era de 31%, atinge, hoje, a marca de 86% dos 209 milhões de habitantes estimados pelo IBGE em 2018. Esses dados, associados aos gravíssimos problemas gerados no mundo urbano, justificam a atenção especial que todos os setores da sociedade devem dedicar a essa realidade.

A Igreja Católica, especialmente no Brasil, tem sido zelosa a esse respeito, agindo com critérios pastorais sempre mais lúcidos frente a essa realidade. Prova disso é o foco no mundo urbano, das Diretrizes Gerais para a Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, para o período de 2019 a 2023, preparadas de modo participativo, desde o nível diocesano, e decididas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em sua Assembleia Geral deste ano.

A missão que a Igreja se propõe frente a essa realidade está anunciada no objetivo geral dessas Diretrizes: “Evangelizar no Brasil cada vez mais urbano, pelo anúncio da Palavra de Deus, formando discípulos e discípulas de Jesus Cristo, em comunidades eclesiais missionárias, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, cuidando da Casa Comum e testemunhando o Reino de Deus rumo à plenitude.” Por que e como implementar esse objetivo?

Jesus percorria cidades proclamando o Evangelho do Reino (cf. Mt 9,35). A Igreja atua no mundo urbano com esse mesmo objetivo, propondo um estilo de vida social que corresponda ao Reino anunciado e inaugurado por Cristo. Sendo Reino de Deus é dom a ser acolhido e realizado historicamente. Sua plenitude, no entanto, transcende a história, fazendo-nos entender que é contrassenso absolutizar modos de vida e sistemas sociais.

Compete-nos acolher o amor de Deus, traduzindo-o em fraternidade, por meio de comunidades de fé que dão sentido à vida. “Aqui está a fonte da ação evangelizadora. Porque, se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?” Assim se expressa o Papa Francisco na Exortação Apostólica Alegria do Evangelho, orientando-nos a testemunhar e propor o amor fraterno.

Como vivenciar o amor fraterno nas condições adversas do mundo urbano, acentuadamente individualista, concorrencial, mercantilista e consumista, e noutras realidades por ele influenciadas? Como transformar os sofrimentos gerados nesse contexto, tais como pobreza, desemprego, condições precárias de trabalho, habitação, educação, transporte, saneamento básico, saúde e segurança, degradação ambiental, violência e solidão?

A Igreja propõe ações solidárias e desenvolvimento de “Comunidades Eclesiais Missionárias”. São “comunidades de fé nas quais a vida, com suas alegrias e dores é partilhada”. Elas são inspiradas na vivência das primeiras comunidades cristãs. “Todos os que abraçavam a fé, viviam unidos e possuíam tudo em comum” (At 2,44). Em decorrência, “a multidão dos fiéis era um só coração” e “entre eles ninguém passava necessidade” (At 4,34).

Essa proposta da Igreja visa superar a privatização da fé que permeia o contexto urbano atual. Nele, o indivíduo é o centro, o que o condiciona a viver uma espiritualidade, também individualizada, sem compromissos comunitários e sociais. Tal tipo de espiritualidade estimula cada um a cuidar exclusivamente de si, comportando-se de modo alienado frente à dinâmica global da sociedade, profundamente desumanizadora, portanto, desafiadora.

Jales, 27 de junho de 2019.

Dom Reginaldo Andrietta, Bispo Diocesano de Jales

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