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Política a serviço da paz

No dia 1.º de janeiro passado, enquanto no Brasil tomavam posse o novo presidente da República e os governadores dos Estados, o papa Francisco lembrava no Vaticano que “a boa política está a serviço da paz”. Não foi mensagem dirigida especificamente aos governantes brasileiros, embora também eles estivessem incluídos entre os destinatários. Todos os anos, em 1.º de janeiro, o pontífice envia uma mensagem em favor da paz a todos os governantes e altas autoridades dos povos e das organizações internacionais.

O foco da mensagem deste ano é a “boa política”, verdadeiro desafio para todos os governantes. A mensagem leva a refletir sobre os grandes objetivos da política, que nem sempre apareceram claramente nos programas e nas prioridades dos que assumem um mandato. Será que os grandes objetivos da política são a vitória do partido, a afirmação da ideologia e dos interesses dos vencedores e a repressão dos não alinhados com eles?

A boa política, à qual o papa se refere, deve contribuir efetivamente para manter e consolidar a paz em todos os sentidos, ou para restabelecê-la onde ela estiver faltando, ou em situação de risco. Com o poeta Charles Péguy, Francisco lembra que a paz é como uma flor frágil, que procura desabrochar entre as pedras da violência… A paz, de fato, está ameaçada sempre que se busca o poder a todo custo, mesmo com meios injustos, violência e desonestidades.

O papa Paulo VI exortava, em plena guerra fria, que é dever de cada pessoa levar a sério a política nos seus diversos níveis – local, regional, nacional e mundial – em defesa da liberdade e do esforço comum para a realização do bem da cidade, da nação e da humanidade (encíclica Octogesima Adveniens, 1971, 46).

Vícios na política podem torná-la odiosa e desacreditada, incapaz de promover a paz. A política pode ser comprometida pela incapacidade e o despreparo do governante, pela falta de prudência, discernimento sereno e equilíbrio sadio. Certos vícios na condução da vida política enfraquecem o convívio democrático, envergonham a vida pública e põem em risco a paz social.

Entre esses vícios, o papa menciona as múltiplas formas de corrupção e enriquecimento ilícito mediante a apropriação de bens públicos, a negação do direito, a falta de respeito às regras estabelecidas e o recurso arbitrário à força – “por razões de Estado” – para a afirmação no poder. Mas também são expressões de má política o fomento da xenofobia e do racismo, a insensibilidade diante dos sofrimentos dos pobres e dos refugiados, a exploração irresponsável dos recursos naturais para o lucro fácil. Entre as formas de política viciada contam-se também as que se destinam a perenizar privilégios questionáveis ou injustos, ou sustentam regimes na base do medo e da violência. O recurso à guerra, para impor as próprias razões a outros povos, é expressão abominável de política e agride diretamente a paz.

Políticas viciadas precisam ser superadas com políticas boas, que tenham no seu centro a pessoa humana e sua inalienável dignidade, promovam consensos para medidas sociais, econômicas e culturais em benefício de toda a população e tenham uma atenção privilegiada para com as camadas sociais mais vulneráveis. O bem comum deve ser o grande objetivo de políticas sábias, voltadas para as necessidades básicas do povo humilde e pobre, mais do que para a consolidação de vantagens de quem já vive em situação privilegiada. Não é sábia nem prudente, e desencadeia conflitos sociais, a política que se volta, sobretudo, para os interesses de quem já é forte e privilegiado.

Os eleitores votam esperando que o escolhido faça a coisa certa, uma vez chegado ao poder. É impensável que alguém vote intencionalmente para eleger um mau governante. Espera-se que os governantes sirvam ao seu povo, protejam a população e trabalhem de forma abnegada para proporcionar condições de convivência digna e um futuro bom para todos. A boa política é, pois, um dever inerente ao mandato, uma responsabilidade e um desfio permanente para quem governa.

Boa política é aquela que consegue conciliar o necessário desenvolvimento econômico com a demanda por justiça e solidariedade social. Os fechamentos nacionalistas podem ser uma tentação fácil para conquistar consensos e apoios, mas eles são prejudiciais à edificação da verdadeira fraternidade, tão necessária no mundo globalizado. Fechar-se aos migrantes e refugiados é privá-los de esperança e das forças necessárias para superarem os sofrimentos que carregam.

A política não deve ser inspirada em motivações mesquinhas e particularistas, mas em ideais e valores elevados, como a dignidade humana, a equidade, a justiça, a solidariedade social. Essas motivações e esses valores elevados oferecem base sólida para governantes e governados, para quem apoia o governo e quem está na oposição. Sustentada e orientada por esses ideais e propósitos, a boa política será, na prática, a arte do possível numa sociedade pluralista e complexa.

O papa Francisco não deixou de incluir entre as boas políticas duas questões cruciais, indispensáveis para a verdadeira paz: o cuidado do meio ambiente, para manter boa e habitável a “casa comum” de toda a comunidade humana, e a atenção especial às novas gerações. Crianças e jovens serão herdeiros do patrimônio social e cultural que hoje construímos. Que não sejam vítimas de nossas más políticas! Eles têm o direito de alimentar seu sonho e sua esperança.

Só nos resta, pois, desejar ao novo presidente e aos demais Poderes da República, como também a todas as forças políticas, sociais, econômicas e culturais, um período de boa política para que o nosso país fortaleça as bases para a verdadeira paz.

Sonhar nunca é demais.

Por Dom Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo

Artigo publicado em “O Estado de S. Paulo”, no dia 12 Janeiro 2019

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