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“O Homem Novo”

Man raising his arms near water

São Paulo afirma que somos cidadãos do céu (Fil.3,20), portanto, não somos cidadãos da terra, ou no máximo, temos duas cidadanias: uma provisória nesse mundo e a outra definitiva no céu. Por isso ele vai coerentemente concluir que somos estrangeiros, peregrinos, exilados nessa vida. A cidadania significa pertença e identificação. Nós, cristãos, pertencemos integralmente a Deus e a nossa identidade profunda, ou seja, nossa maneira de pensar e agir, é a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nossa identidade é Jesus Cristo. Por isso, quanto mais somos identificados com Cristo, mais realizados e plenos seremos. Pelo contrário, quanto mais distantes e diferentes do modo de ser de Jesus, mais desorientados e vazios nos sentimos. Sem a fé o ser humano nunca será ele mesmo inteiro, mas será uma pessoa diminuída e, em casos mais graves, desumanizada.

“Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). O divino está no DNA do cristão, ele traz nas veias da alma o sangue do amor de Deus. O normal para o cristão é ser bom e fazer o bem, mas quando ele se torna mau, fica doente espiritualmente e nas suas veias já não corre o bom sangue de Deus e, como em uma anemia espiritual, ele fica um ser desfigurado, enfastiado, apático e sem vida. “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). Infelizmente, a perda de vitalidade existencial de muitas pessoas é por falta de raiz ou de raízes fincadas em terra ruim. Aquele, porém, que procura se aproximar de Deus “será como árvore plantada junto a um riacho e que dá fruto no tempo devido, sua folhagem não seca jamais, encontrará sucesso em tudo o que faz” (Sl 1,3).

Todos nós sentimos na pele, diariamente, a luta entre o homem velho e o homem novo. Enquanto o homem novo que há em nós, identificado com Jesus, quer ser bom e fazer o bem, o homem velho ainda está na fase do olho por olho e dente por dente. Bateu levou. É muito triste ver pessoas ditas cristãs que, depois de dois mil anos de ensinamentos do Evangelho, ainda estufam o peito com arrogância e vociferam: Eu não levo desaforo pra casa! Jesus ensinou a pagar o mal com o bem. Jamais o cristão deve deixar-se levar por sentimentos de vingança ou, pelo seu filhote, que é a pirraça.

O cidadão do céu, identificado com Jesus, decide seguir sua voz que lhe sussurra no interior da sua alma. “Eu vos digo: Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam. Se alguém te der uma bofetada numa face, oferece também a outra. Se alguém te tomar o manto, deixa-o levar também a túnica. Dá a quem te pedir e, se alguém tirar o que é teu, não peças que o devolva. O que desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles. Se amais somente aqueles vos amam, que recompensa tereis? Até os pecadores amam aqueles que os amam. E se fazeis o bem somente aos que vos fazem o bem, que recompensa tereis? Ao contrário, amais os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai sem esperar nada em troca. Então, a vossa recompensa será grande, e sereis filhos do Altíssimo, porque Deus é bondoso também para com os ingratos e os maus. Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados. Dai e vos será dado” (Lc 6,27-38).

São João da Cruz escreveu que “é melhor refrear a língua do que jejuar a pão e água”. Preparemo-nos para a Páscoa exercitando-nos na oração, esmola e jejum, isto é, aproximando-nos de Deus e dobrando nosso orgulho e egoísmo para que o homem novo possa resplandecer cada vez mais em nós. Temos a certeza da vitória sobre o mal e a morte unidos a Jesus Ressuscitado que vive e reina ontem, hoje e sempre. Amém.

Por Dom Rubens Sevilha, OCD, bispo diocesano de Bauru. Artigo publicado na coluna Conversando com o Bispo do Jornal da Cidade no dia 17 de março de 2019.

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