Artigos

O grito de nossa gente

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, cerca de 147 milhões de eleitores deverão ir às urnas este ano, para eleger presidente da república, senadores, governadores, deputados federais, estaduais e do Distrito Federal. Essa “Romaria às urnas”, na qual muitos dizem que não participarão por não acreditarem nos “milagres prometidos” pelos candidatos e partidos, é, no entanto, de grande importância, especialmente para a classe trabalhadora.

As decisões do governo federal estão sendo catastróficas para a classe trabalhadora. Por isso, quanto mais os trabalhadores e trabalhadoras participarem na vida política, mais as elites econômicas serão extirpadas de espaços institucionais que legitimam suas políticas antissociais. Essas elites, aliadas ao capital internacional, querem um Estado forte a seu favor, dirigido por políticos mancomunados, subservientes e fáceis de serem manipulados.

A política, que na antiguidade grega era tida como virtude, tem sido estigmatizada para que o povo trabalhador se aparte dela e as elites se tornem beneficiadas. Por isso, os meios de comunicação, em mãos dessas elites, disseminam a ideia de que política é coisa suja. Sua descredibilização ostensiva tem gerado aversão popular à vida pública e até mesmo preconceito ao termo política, sobretudo em ambientes religiosos conservadores.

O Papa Francisco, ao falar sobre a necessidade de “reabilitar a dignidade da política”, na sua mensagem aos políticos católicos reunidos em um encontro continental, na Colômbia, em dezembro de 2017, ressalta a importância dessa “nobre forma de caridade” e de “políticos que anteponham o bem comum aos seus interesses privados, que não se deixem intimidar pelos grandes poderes financeiros e midiáticos”.

“Não podemos nos resignar à situação deteriorada na qual nos debatemos”, diz o Papa nessa mensagem. Por isso, a Igreja incentiva sobretudo os cristãos leigos e leigas a assumirem sua missão “no mundo vasto e complicado da política, da realidade social e da economia” conforme indica a Constituição Pastoral Gaudium et Spes (Alegria e Esperança), do Concílio Vaticano II. Como essa missão deve ser assumida no Brasil atual?

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em sua mensagem sobre as eleições, em abril deste ano, propõe identificarmos claramente os interesses subjacentes a cada candidatura, ressaltando que “não merecem ser eleitos ou reeleitos candidatos que se rendem a uma economia que coloca o lucro acima de tudo e não assumem o bem comum como sua meta, nem os que propõem e defendem reformas que atentam contra a vida dos pobres e sua dignidade.”

Os próprios pobres devem, então, saber escolher candidatos comprometidos com a classe trabalhadora. O tempo da confiança cega, no entanto, acabou. O tempo, agora, é de participação organizada e de luta permanente. Esse é um dos recados da 34ª. Romaria Diocesana de Jales, ocorrida no último dia 19 de agosto. O recado da 31ª. Romaria dos Trabalhadores e Trabalhadoras que ocorrerá em Aparecida, no próximo dia 7 de setembro, será assim, igualmente.

Seu lema o comprova: “O povo trabalhador, com esperança, fé e ação, derruba o sistema de maldade e exploração”. O 24º Grito dos Excluídos e Excluídas, promovido também pela Igreja Católica no Brasil, se somará a essa Romaria, nesse dia. Esse “Grito”, inspirado no lema “Desigualdade gera violência: basta de privilégios”, deverá ecoar em todo o país, em favor de uma nação independente e diferente. Que seja, então, um “Grito” de toda a nossa gente!

Jales, 23 de agosto de 2018.

Por Reginaldo Andrietta, Bispo Diocesano de Jales

Adicionar Comentário

Clique aqui para comentar

Palavra do Presidente

Facebook

Assine nossa newsletter

Conheça nossos parceiros.