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Mês da Bíblia

A Palavra de Deus além de sábia, ela também é bela. A infinita e eterna beleza de Deus se expressa nas maravilhosas poesias espalhadas ao longo de toda a Sagrada Escritura. Todos sabemos que a Bíblia é um conjunto de livros antigos, escritos em variadas épocas por diversos autores. Muitos autores são desconhecidos. Os estudiosos da Bíblia (exegetas) procuram explicar cientificamente o aspecto humano da Bíblia, ou seja, o texto e seu contexto histórico.

Mas a Bíblia não é simplesmente humana, ela é um texto inspirado por Deus dentro da pedagogia divina que conduz e educa a humanidade ao longo da história. O autor sagrado não transcreveu um ditado feito por Deus; muito menos ele entrou em “transe místico” ao escrever. A inspiração é divina, porém a escrita é humana: palavras, traduções, papiros, pergaminhos, tintas, estilos literários, etc.

Deus age e fala conosco através das coisas humanas. Os sacramentos são os maiores exemplos disso: o pão e o vinho, coisas tão humanas, tornam-se o Corpo e Sangue de Cristo, coisas tão divinas. O humano e o divino se amalgamam de tal forma, que não é fácil saber onde começa um e termina o outro. A teologia chama de mistério da Encarnação essa divina mistura, ou “divino comércio”, como prefere a Patrística. De fato, desde os contemporâneos de Jesus até aos nossos dias, temos dificuldade em entender e explicar como Cristo pode ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem. A tentação hoje é ressuscitar antigas heresias do início do cristianismo que procuram ressaltar a humanidade de Jesus e diminuir ou até excluir a sua divindade reduzindo-O somente a um dos grandes personagens da história.

A Palavra de Deus, portanto, reflete perfeitamente a complexa e maravilhosa realidade humana. Há momentos da vida em que as coisas dão certo, prosperam, florescem e, quase que espontaneamente, somos levados a louvar a Deus pelas suas obras, como por exemplo, no salmo 8: “Visitais a nossa terra com as chuvas e transborda de fartura. Rios de Deus que vêm do céu derramam águas e preparais o nosso trigo. Abençoais as sementeiras. Transborda a fartura onde passais, brotam pastos no deserto. As colinas se enfeitam de alegria e os campos de rebanhos, nossos vales se revestem de trigais: tudo canta de alegria!”

Todavia, pelo contrário, há momentos de tempestades em que tudo parece dar errado. Na Bíblia há inúmeros relatos de pessoas, algumas até muito santas e importantes, que viveram situações muito complicadas e chegaram até a pedir para morrer!

Se fosse possível medir a fé, a melhor maneira de medi-la seria, talvez, pela capacidade de manter a alegria e a confiança no Senhor nos momentos em que tudo dá errado na vida; manter a paz no coração e continuar a combater o bom combate mesmo quando se fracassa e se sente estar no fundo do poço.

Ter fé nos momentos fáceis é fácil; por isso, pessoalmente, uma das palavras que mais me tocam a alma está no livro de Habacuque 3, 17-18:

    “Ainda que a figueira não floresça nem a vinha dê seus frutos,

                  a oliveira não dê mais o seu azeite, nem os campos, a comida;

                 mesmo que faltem as ovelhas nos apriscos e o gado nos currais:

                mesmo assim eu me alegro no Senhor, exulto em Deus, meu Salvador!”

Não é fácil caminhar no “vale de lágrimas” e, diante da nossa fraqueza, a Sagrada Escritura nos mostra o delicado e terno amor de Deus Pai que nos fortalece e alimenta, expresso nestas palavras de sublime beleza: “a paz em teus limites garantiu e te dá como alimento a flor do trigo” (Salmo 147, 14). Que assim seja!

Por Dom Sevilha, OCD,bispo de Bauru.

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