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“Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor!” (Sl 94)

O próprio Criador colocou no coração do ser humano o desejo, e mesmo a necessidade, de viver em comunhão com os demais. Impossível ao ser humano realizar-se plenamente sem encontro, diálogo, partilha, doação e comunhão. Com o pecado, desde a origem, essa inclinação para amar o irmão, que devia ser natural e satisfatória, passou a ser difícil e incompleta. Caim mata seu irmão Abel. Continuamos a buscar sofregamente o amor, a amizade, a comunhão, mas esbarramos no nosso próprio ego, na má vontade, nos desencontros, no pecado. Jesus Cristo é a Palavra Viva do Pai, para nos reconduzir à felicidade original. Mas para isso, precisamos de uma urgente e permanente conversão.

O tempo da Quaresma é, portanto, precioso. É a oportunidade que o Senhor nos dá para restaurar o nosso coração e ouvir a voz de Deus. Não insistir mais nos caminhos errados e obedecer aos mandamentos divinos. Entender por que sofremos e em que ponto de nossa vida nos desviamos da felicidade de servir ao Senhor, e passamos a buscar o que o mundo nos oferece como proposta.  Fazemos na Quaresma o trajeto da cruz: colocamos o nosso sofrimento junto com o de Cristo em sua Paixão, e com ele ressuscitamos. Redescobrimos o valor da vida, o amor, a comunhão fraterna. Conversão e penitência não são palavras que inspiram tristeza, mas abrem uma perspectiva muito alegre, de renovação e de harmonia.

Não fazemos esse trajeto sozinhos. Jesus nos deixou a Igreja – os irmãos de fé – para nela buscarmos o apoio e a motivação. Ela própria, a Igreja, precisa de conversão permanente. Mais urgente ainda nestes tristes tempos de empobrecimento da fé, inversão de valores, escândalos e contra testemunhos. Pecados que estão presentes estruturalmente no mundo, mas que na Igreja se tornam ainda mais graves, dada a sua missão de conduzir os homens com segurança para Deus.

Na Quaresma, a Igreja do Brasil abraça a causa da Fraternidade. Essa palavra, Fraternidade, está no coração do Evangelho, e é o primeiro e o maior dos mandamentos. A Fraternidade dá um rosto concreto à conversão quaresmal. Já houve quem questionasse a Campanha da Fraternidade alegando que ela desvia o sentido próprio desse tempo litúrgico. Longe disso, a proposta de aprofundar os laços fraternos, tendo como espelho a paixão e a ressurreição, é absolutamente coerente. “Sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte” (1Jo 3,14). Outro traço da Quaresma também ligado à Fraternidade é a partilha dos bens: a coleta feita no domingo de Ramos, sempre usada com muito critério a serviço dos necessitados, cabe completamente neste tempo litúrgico como sinal de conversão e sede de justiça.

A Campanha deste ano liga a Fraternidade às Políticas Públicas. É bom esclarecer que isso nada tem a ver com a política partidária, pois esse não é o campo da Igreja. Políticas públicas são ações do governo, sim, mas são diretrizes e programas criados para enfrentar os problemas públicos. A identificação dos problemas, a escolha dos caminhos, a formulação das diretrizes precisa contar com a participação de toda a sociedade. Nesse campo a Igreja sempre participou ativamente. Basta lembrar o papel das Santas Casas, na área da saúde; dos Colégios Católicos, na área da Educação; da Pastoral da Criança, na prevenção da mortalidade infantil; as cestas básicas entregues em nossas paróquias e muitas outras iniciativas. Os problemas públicos se agravaram nos tempos de hoje e a Igreja, por estar próxima da vida das pessoas, pode ajudá-las a ter voz no debate e na formulação das políticas públicas. Uma forma especialmente importante de estar presente é a participação nos Conselhos deliberativos previstos na Constituição. Os conselhos da Criança, da Saúde, da Assistência Social e da Educação são de extrema importância na formulação das políticas públicas. No entanto, contam hoje com uma presença muito fraca da nossa Igreja, se comparamos com outros grupos e instituições. É preciso que os nossos leigos sejam incentivados a participar daquilo que lhes cabe na construção da sociedade, também através da elaboração e acompanhamento das políticas públicas.

Enfim, a Quaresma e a Campanha da Fraternidade nos convidam a olhar o mundo com o mesmo olhar que tinha o Filho de Deus ao andar pelos caminhos da Galiléia. Restaurar a nossa identidade cristã, defender a dignidade dos mais desprotegidos, tornar pública a nossa voz na defesa da vida, desde a concepção até a morte natural, defender a natureza como dom do Criador, dialogar com a sociedade propondo os valores do Evangelho, tudo isso é construir um mundo fraterno, e está dentro da nossa missão de evangelizar. Grande parte das nossas comunidades já está fazendo esse caminho de unir fé e vida, como duas realidades que não se opõem, mas se completam. Com a riqueza da conversão quaresmal, iluminada pelas luzes da Campanha da Fraternidade, esperamos estar, hoje e sempre, de coração aberto à voz do Senhor.

Por Dom João Bosco, ofm, Bispo Diocesano de Osasco

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